sexta-feira, 8 de maio de 2015

Zebra no dia da Vitória





Deu zebra nas eleições britânicas. A disputa parecia apertada e a aposta era que nenhum partido teria maioria, o que levaria a mais um governo de coalizão. No dia seguinte da votação, vieram as surpresas. A briga não estava assim tão acirrada. O partido trabalhista perdeu feio. Os conservadores venceram e David Cameron continua no poder, desta vez fortalecido, porque seu partido conseguiu a maioria dos assentos.  

 

Hoje o país celebra o VE Day, o dia da vitória. Setenta anos atrás, os britânicos comemoravam o fim da Segunda Guerra mundial. Para David Cameron, este vai ser um dia inesquecível. Para os líderes dos outros partidos, o dia em que políticos caíram em efeito dominó. O trabalhista Ed Miliband e o liberal democrata Nick Clegg renunciaram e entregaram os respectivos cargos, logo após a cerimônia comemorativa. Os dois visivelmente abatidos. Nigel Farage do UKIP, o partido da independencia, não se elegeu e também renunciou à liderança de seu partido.
 

 
 Enquanto eles fazem seu mea culpa, Nicola Sturgeon, a líder do partido nacionalista escocês (SNP), comemora vitoriosa. Diz que nunca sonhou com um resultado tão bom. Seu partido varreu os trabalhistas do mapa na terra do whiskey. Os escoceses odeiam os Conservadores. O desejo pela independência tem mais chances de crescer. O cenário político nesta ilha mudou radicalmente de ontem para hoje. David Cameron prometeu que, se reeleito, teríamos um referendo sobre a permanência da  Grã-Bretanha  na comunidade europeia.


 
arquivo pessoal
 
 
 

  Quem sabe na próxima eleição o Reino Unido não será assim tão unido e o país terá deixado a comunidade europeia? Se existe uma lição no que aconteceu neste país nas últimas 24 horas é que em política nada é certo, tudo é possível.
 
 
 
 


 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Uma mulher, um casal gay, uma criança e uma sentença


‘Religiões, sistemas morais, o dela incluído, eram como picos numa cordilheira montanhosa, vistos de uma grande distância, nenhum obviamente mais alto, mais importante ou verdadeiro do que o outro. O que há para julgar?’

(Ian McEwan)

 
 
 
 
 
Fiona Maye é uma juíza da suprema corte inglesa. Altamente educada, bem relacionada, rica e amante da música clássica. Ela é casada com um intelectual igualmente respeitado. Eles não têm filhos. Ainda assim, cabe à ela resolver o destino de muitas crianças. Fiona trabalha na vara de família. Ela é conhecida por sua ‘imparcialidade divina e inteligência diabólica’, de acordo com um colega de profissão. No entanto, ela não é real. Saiu da cabeça do escritor Ian McEwan e vive nas páginas do ‘The Children Act’ ( ‘A balada de Adam Henry’, em português pela Cia das Letras). Trata-se de um livro pequeno, mas recheado de reflexões e o eterno conflito entre o racionalismo e a religiosidade.

 
Livro de Ian McEwan
 
 
 
 
Gostei bastante do livro, mas este post não é uma crítica literária. Acordei hoje com a Fiona Maye na cabeça. Na verdade, comecei a pensar nela depois de dar uma lida rápida nas notícias do dia. Uma delas me chamou atenção. Uma juíza chamada Alison Russell decidiu que uma menininha de 15 meses deve ser retirada imediatamente da mãe e entregue ao pai biológico e seu companheiro. O caso é polêmico, porque mesmo aqui, a Justiça tende a julgar em favor da mãe.

 
A história começou antes  de a criança nascer. Pela determinação da Justiça, nenhuma pessoa envolvida neste caso pode ter o nome revelado, por razões óbvias. O pai da criança, um homossexual romeno bem de vida, queria ter um filho. Procurou uma amiga, também romena, que topou ser a barriga de aluguel. Aliás, durante a gravidez, o pai pagou as despesas da mãe. Pela lei britânica, não se pode pagar por uma barriga de aluguel (a mulher pode sim receber uma ‘ajuda de custo’, uma brecha na lei que acaba sendo de praxe). No meio do caminho, ou talvez ela tivesse planejado isso desde o princípio, a mãe da criança mudou de ideia. Queria que o bebê fosse somente dela.


 
 
 
 
 
 
A mulher teve a criança sem contar para o pai e seu companheiro. Quando a menina tinha um mês de idade, eles decidiram entrar com uma ação na Justiça, para ter a guarda da criança. Contrariando uma decisão judicial, a mulher batizou a filha com um nome que ela escolheu. A mãe é cristã ortodoxa, o pai protestante e o companheiro do pai é católico. O famoso ame ao próximo como a si mesmo, aqui foi mais um complicador. Os cristãos em questão não conseguiram chegar a um acordo e o relacionamento entre as partes azedou ainda mais.

 
Coube à juíza dar a sentença. Durante o julgamento, segundo consta, a mãe da criança apelou. Fazia-se de vítima e discriminada. Ela teria interrompido as audiências várias vezes, para amamentar a menina. Quando era a vez dela (ou de alguma testemunha favorável a ela) falar, ela não precisava alimentar a criança. Além disso, a mulher teria usado expressões homofóbicas e insinuado que o pai da criança e seu companheiro eram promíscuos, por serem gays. A meritíssima juíza não caiu nessa. Criticou o comportamento da mulher durante o julgamento e acusou a mãe de ter usado o pai como um doador de esperma. No final da sentença, ela afirmou que tirar a criança da mãe (que ainda está amamentando) não é uma decisão fácil, mas que ela acredita que o pai da menina tem mais condições de ‘criá-la para que ela seja feliz, equilibrada, saudável e desenvolva suas potencialidades’. A mãe, que tem outras duas crianças, agora só poderá ver a menina em visitas supervisionadas.
 
 
 


Só posso imaginar que não seja mesmo fácil tomar decisões que afetam o destino de uma criança. Logo que me mudei para essa ilha, outro caso de família ocupava as manchetes. Fiz uma pesquisa  e descobri que  minha memória havia me enganado. Não foi aqui e sim nos Estados Unidos. Um casal de namorados decidiu terminar o relacionamento. A moça estava grávida e queria abortar. O rapaz queria a criança. Seu argumento era forte: o bebê era tanto dele, quanto da mãe. Se ela não queria o filho, que o desse para ele. No final, a Justiça votou a favor da mulher, argumentando que se tratava do corpo dela, sobre o qual ela tinha total autonomia. Os grupos pró-vida espernearam. As feministas comemoraram. Os destinos de três vidas foram selados numa sentença.




E ainda tem gente que acha que julgar seja fácil...


 


sábado, 2 de maio de 2015

Submarino Nuclear


 

Esqueça o submarino amarelo do Beatles. O submarino em questão na Inglaterra hoje  é outro. Não tem nada de lúdico ou divertido.

 

Transformar submarinos nucleares da terceira idade em sucata ou construir modelos mais modernos? Esta é uma pergunta caríssima. De acordo com o governo, ela vale entre 17 a 23 bilhões de libras (coisa de 78 a 100 bilhões de reais). Para os pacifistas, o custo é de 100 bilhões de libras (cerca de 450 bilhões de reais) em 40 anos.

 

Dois mais dois vão ser sempre quatro. Mas a diferença na matemática das armas nucleares mostra que cada um dos lados exibe os dados que lhes convêm. Na conta do governo, o custo estimado para construir e reformar os submarinos. E só. Detalhe, o departamento de defesa tem a fama de subestimar os custos e acabar gastando mais do que o prometido.

 

  Já para o ‘ Campaign for Nuclear Disarmament’ – CND (uma ONG para o desarmamento nuclear), os números do governo não fecham. Para chegar aos 100 bilhões de libras em quatro décadas, eles consideraram uma determinação do Ministério da Defesa de destinar entre 5 a 6% de seu orçamento com o programa nuclear, o que dá cerca de 2.4 bilhões de libras por ano (vezes 40 anos). Olharam para os custos em separado. Levaram em conta 57 bilhões de libras em custos, mais 13 bilhões para se livrarem dos submarinos ultrapassados, somados aos 23 bilhões para construir novos submarinos e, finalmente a cereja do bolo: um bilhão para as forças militares garantirem a segurança do arsenal nuclear. Noves fora aqui, noves fora ali, essa conta também soa estranha. O fato é que, mais do que o custo para o bolso do contribuinte britânico, essa discussão importa porque pode ter implicações profundas para esta ilha.

 

Na quinta-feira, dia 7 de maio, os britânicos participarão de uma eleição geral. O voto no Reino Unido é distrital. O país é dividido em 650 distritos eleitorais. O eleitor vota no parlamentar da sua região. Cada região tem apenas um representante no Parlamento. O que torna mais fácil acompanhar como  seu parlamentar vota. O eleitor não escolhe o primeiro-ministro. Na prática, o primeiro-ministro é o líder do partido com maioria no parlamento.

 

Como nada na vida é tão simples assim, o sistema eleitoral daqui tem um lado bom e outro ruim. O bom é que fortalece os partidos políticos e suas ideias. Mas às vezes põe o eleitor numa sinuca de bico. Vou dar um exemplo. Na região onde vivo, o nosso atual parlamentar é de um partido, que não tem a menor chance de fazer o próximo primeiro-ministro. Tenho conversado com algumas pessoas que reconhecem que ele faz um bom trabalho, é dedicado e acessível. No entanto, esses mesmos eleitores dizem que não vão votar nele desta vez, porque acabariam favorecendo outro partido, que não querem ver no poder. Ou seja, o dilema é: voto para o meu político local e esqueço a eleição para o cargo principal, ou escolho um candidato que não me representa localmente? 
 
 


Submarino Nuclear
 

 

Mas voltando aos submarinos nucleares. Este é um tema quente nestas eleições. Os britânicos possuem quatro navios nucleares, parte do chamado programa Tridente, que patrulha as águas britânicas.  Eles têm uma vida útil (modo de dizer) de vinte e cinco anos. O prazo de validade termina em 2020, quando poderão virar sucata e dar lugar a modelos mais jovens, ou serão recauchutados. Os dois principais partidos políticos, conservador e trabalhista são a favor de renovar a frota, sem restrições. O UKIP, o partido independente, quer salvar três dos quarto submarinos . Já os liberais democratas e o SNP, o partido nacionalista escocês, fecham com os ativistas e querem se livrar dos quatro.

 

Os argumentos são fortes de todos os lados. Para os pacifistas, com 100 bilhões de libras este país poderia produzir muita coisa boa: empregos para 150 mil enfermeiros, construção de um milhão e meio de moradias e cobriria os custos de quatro milhões de estudantes universitários. Num tempo em que todos os partidos e candidatos falam em austeridade econômica e cortes, estes números soam como música. Mas talvez o ‘X’ da questão não esteja necessariamente no bolso.

 

Continuar investindo em armamentos nucleares traz problemas morais e éticos. Ao manter o programa Tridente, este país estaria contribuindo para a escalada militar do planeta? Será que já não estaria na hora de se livrar de uma política de defesa que nasceu na guerra-fria? Que diferença os navios nucleares fazem para a defesa britânica? São muitas questões, que o eleitor deveria considerar. Afinal, caberá ao próximo primeiro-ministro e ao parlamento decidirem sobre o futuro das armas nucleares desta ilha.

 

Num documento assinado por vinte ex-membros da defesa britânica (leia-se militares aposentados) eles alertam que se livrar dos submarinos seria deixar o Reino Unido enfraquecido e vulnerável a ataques. Mais ou menos como no jogo de Super Trunfo. O jogador com a carta ‘super trunfo’ está com tudo. Esta carta vence todas as outras. Da mesma maneira, a ideia é ter os submarinos nucleares e usá-los para frear ataques ao país. Não mexa comigo, porque eu tenho a carta mais poderosa e a usarei, se você pisar no meu calo. É a velho argumento de que as armas nucleares são instrumentos de paz. Durma com um barulho desses.

 

Na história recente, mais precisamente em 1994, foi assinado na Hungria o Memorando de Budapeste. O acordo que faz parte do tratado de não proliferação de armas nucleares entre Rússia, Estados Unidos, Reino Unido, França e China. Pelo acordo, a Ucrânia concordou em abrir mão do terceiro maior arsenal de armas nucleares do mundo (herança da Ex-União Soviética). Em troca, recebeu garantias dos países, que assinaram o documento, de que sua integridade política, geográfica e sua independência estariam garantidas.

 

 Duas décadas mais tarde, no ano passado, a Rússia anexou a Criméia, parte do território ucraniano. Vladimir Putin fez picadinho do documento e agora se faz de bobo. Diz que uma coisa não tem nada a ver com a outra, porque a separação da Criméia aconteceu por causa de problemas internos na Ucrânia. A tensão na região continua alta.

 

Os que defendem a continuação do programa Tridente usam a anexação russa da Criméia para reforçar seus argumentos. Outro ponto é que os novos submarinos vão gerar mais de dez mil empregos neste país, se bem que em 2012, um dos ministros disse que sairia bem mais barato transferir a produção para as Bahamas.

 

Uma das grandes surpresas da atual corrida eleitoral é uma mulher. Nicola Sturgeon é a líder do partido nacionalista escocês e ‘primeira-ministra’ da Escócia. Ela tem dado um show nos debates políticos e, principalmente, tirado o sono dos trabalhistas, que antes eram maioria na terra do whisky. Para ela, renovar o programa Tridente, com os submarinos nucleares patrulhando a costa vinte e quatro horas por dia, é um absurdo. Ela diz que o projeto todo é inútil e indefensável. ‘Nenhum político com credibilidade pode dizer que irá usar um armamento nuclear, que matará muitos civis, de forma indiscriminada e massiva e criar uma catástrofe ambiental.’

 

Poucos dias antes da eleição, o jogo político se intensifica. O partido trabalhista de Ed Miliband apresenta uma ligeira vantagem nas pesquisas de intenção de votos. Entretanto, ao que tudo indica, nenhum partido vencerá com maioria, o que, mais uma vez, levará a uma coalizão de partidos para formar o governo. Politicamente os escoceses estão bem próximos dos trabalhistas. Nicola Sturgeon tem acenado com uma aliança com Ed Miliband. Ele tem esnobado a oferta. Ela quer um novo referendo para votar a independência da Escócia, o que não interessa aos trabalhistas. Outro ponto de discórdia é o programa Tridente. Se bem que essa semana, Nicola Sturgeon disse que isso não é motivo para o partido dela não votar com os trabalhistas em outras questões. Como se vê, nada é preto no branco. Se ao menos vivêssemos num submarino amarelo, onde todos são amigos...







 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Maioridade penal na Inglaterra





Em Merseyside, um subúrbio da famosa Liverpool dos Beatles, que  não é exatamente bonito, nem próspero,  entrou para o mapa desta vez por causa de um crime terrível, em 1993. James Bulger, um menininho de dois anos, foi às compras com a mãe. Ela entrou numa loja e, um minuto depois, o garotinho tinha desaparecido. Dois dias mais tarde, foi encontrado morto. Seu corpo não deixava dúvidas, foi uma morte violenta. Ele havia sido despido da cintura para baixo e torturado brutalmente; apresentava 42 marcas de agressões físicas graves.



James Bulger

Com a ajuda de câmeras de vigilância e de testemunhas, o assassinato foi desvendado rapidamente. Os culpados eram dois meninos de dez anos de idade: Jon Venables e Robert Thompson. A natureza e a crueldade do crime provocaram uma forte resposta da população. Mais de quinhentas pessoas foram ao tribunal exigir que Venables e Thompson fossem condenados à prisão perpétua. O caso mudou a forma como esta ilha encara os crimes cometidos por crianças e adolescentes. Os dois foram os réus mais jovens condenados à prisão, no século vinte, no Reino Unido.



Jon Venables

O julgamento foi criticado pela Corte Europeia de Direitos Humanos, que em 1999 declarou que os meninos não haviam recebido um julgamento justo. O fato é que os dois foram julgados numa Corte para adultos e saíram do tribunal como prisioneiros: deveriam cumprir uma sentença de no mínimo oito anos. Os nomes de Jon e Robert foram divulgados para o público e suas famílias tiveram que mudar de cidade e de identidade, temendo serem vítimas de justiceiros. Logo após o julgamento, a pena foi revista e subiu para um mínimo de dez anos. Eles não sairiam da cadeia antes dos vinte anos de idade.
Robert Thompson


 O tabloide ‘The Sun’ deu início então a uma campanha. Recolheu duzentas e oitenta mil assinaturas e pressionou o ‘home secretary’, uma espécie de ministro para assuntos internos, a aumentar o tempo de custódia. Em 1994, a pena subiu para um mínimo de quinze anos. A interferência do governo, impulsionada pela opinião pública, foi duramente criticada e, em 1997, a pena foi reduzida. A Casa dos Lordes (o senado daqui) determinou que o executivo não poderia interferir com a Justiça. O então primeiro-ministro, o Conservador John Major, afirmou: “a sociedade precisa condenar um pouco mais e compreender um pouco menos”. Ele certamente estava afinado com o ‘humor’ geral da nação, sedento de sangue e inflamado pela mídia. Mas o primeiro-ministro estava certo?


No Livro ‘Why Love Matters (2004), (não encontrei uma versão em português), a autora Sue Gerhardt vai buscar na neurociência algumas respostas para comportamentos como o dos assassinos confessos de James Bulger. A ideia central do livro é que o amor ajuda a construir as conexões cerebrais, que tornam possível que uma pessoa se relacione bem com outro ser humano. Ela cita o caso clássico dos órfãos da Romênia, que foram negligenciados, abusados e totalmente privados de contato humano e amor, enquanto cresciam em orfanatos públicos e miseráveis. Bebês, que eram confinados em berços, sem higiene, sem carinho e atenção. As dificuldades, enfrentadas nos primeiros anos de vida destes órfãos, não deixaram apenas sequelas psicológicas. Exames de tomografia revelaram que no cérebro dessas crianças existia um buraco negro, no que deveria ser a parte responsável por controlar as emoções. Elas também apresentavam vários problemas de aprendizado, atrasos cognitivos e de linguagem. Em outras palavras, a falta total de amor impediu o desenvolvimento cerebral.

Orfanato romeno


O caso dos órfãos é extremo e ilustra bem como o cérebro se desenvolve nos primeiros anos de vida. Mas a autora foi mais longe e investigou também o passado dos meninos assassinos de Merseyside. Não chega a surpreender que ambos venham de famílias totalmente desestruturadas. A mãe de um era alcoólatra, a do outro sofria de depressão profunda. Ambas eram separadas dos pais das crianças e batiam muito nos filhos. Os pais não eram melhores. Os meninos foram expostos à pornografia a partir dos três anos de idade e começaram a fumar maconha aos seis. Os dois viviam numa situação onde os níveis de estresse eram constantemente altíssimos, o que segundo a autora, resulta num desenvolvimento cerebral comprometido.






O ‘Why love matters’ acabaria influenciando algumas políticas de ação social neste país. Mas o ponto é que nem todo mundo que é exposto a essas condições sai por aí torturando e matando criancinhas. Felizmente este é o comportamento raro. Por outro lado, nem todo assassino teve um começo de vida difícil.


Este parece ser o caso de Will Cornick. Aos quinze anos, ele esfaqueou e matou cruelmente a professora Ann Maguire na sala de aula, na frente dos colegas. O motivo? Não gostava dela. Segundo consta, os pais de Will adoravam o filho e viviam em função dele. Ele era um estudante brilhante. Dois anos antes de cometer o crime, teve um desmaio numa excursão da escola, foi diagnosticado com diabetes e começou a apresentar mudanças de comportamento, que incluíam automutilação. Ele teria sofrido uma decepção grande ao ser rejeitado para o serviço militar e, no natal de 2013, mandou uma mensagem pelo Facebook a um amigo, dizendo que ia matar a professora. Ele teria dito também que pretendia matar outras duas professoras, uma delas grávida. Na época, se falou muito que, se fosse nos Estados Unidos, onde a venda de armas é liberada, ele provavelmente teria feito um estrago muito maior. Aqui não é fácil conseguir arma de fogo.


A professora Ann Maguire



O crime aconteceu em abril de 2014. Ele foi condenado à prisão perpétua. Em sua sentença, o juiz disse que Will Cornick era um risco para a sociedade. Cornick também foi julgado numa Corte para adultos, que decidiu que o réu sabia o que estava fazendo no momento do crime. O caso dividiu opiniões, como era de se esperar. Uma colunista do The Guardian (com uma linha mais de esquerda) criticou a sentença. Disse que o cérebro do adolescente, devido a sua pouca idade, não estava completamente amadurecido e questionou a sanidade mental do rapaz. Já a colunista do tabloide The Sun escreveu: “agora ele vai cumprir a sentença, onde estará sendo monitorado, para que não cometa suicídio. Pessoalmente, eu lhe ofereceria uma corda e privacidade”.



William Cornick


O Reino Unido é um dos países que tem as leis mais duras com relação à maioridade penal. Opiniões tão diversas como as das duas colunistas acima não deixam dúvidas: este é um terreno difícil de trilhar. Parece claro que muita gente insiste em enxergar o assunto pelos extremos. Um lado transformando o criminoso em vítima e o outro em diabo encarnado. Pode um infrator ser ao mesmo tempo vítima e agressor? Afinal, qual é o objetivo de uma sentença? Punição? Vingança? Oferecer a oportunidade de reabilitação do criminoso? Mandar a mensagem de que o crime não compensa? Já vi muitos comentários defendendo que crianças como Venables e Thompson devem mesmo ser emprisionadas, para servirem de exemplo. Será que quem comete crimes tão bárbaros como o assassinato de James Bulger realmente pensa nas consequências?  

De volta ao século passado, enquanto o primeiro-ministro John Major exibia seu lado linha dura, seu oponente e sucessor Tony Blair fazia outras apostas. Em um famoso discurso inflamado, ele falou sobre a repercussão do assassinato de James Bulger: “Ouvimos falar de crimes tão horríveis que provocam raiva e descrença em proporções iguais ... Estas são as manifestações feias de uma sociedade que está tornando-se indigna desse nome”.

 Já passou foi água debaixo dessa ponte. Dezoito anos mais tarde, a maioridade penal neste país continua sendo dez anos. Mas neste meio tempo, tanto os governos dos trabalhistas (Blair e Brown) quanto o de David Cameron vem trabalhando duro para diminuir a criminalidade de crianças e adolescentes. As medidas têm caráter preventivo. Vão desde investimentos em educação, não só nas escolas como também nas prisões, até um sistema de triagem mais eficiente nas delegacias de polícia. Muitos infratores não chegam a ser condenados. Recebem advertências , medidas socioeducativas e são monitorados.

O governo reconhece que um problema sério entre jovens nesta ilha são as gangues. Principalmente nas regiões mais pobres, elas fazem parte da cultura local. Em geral, a criminalidade tem caído por aqui, com exceção das brigas de gangues, nas quais adolescentes são esfaqueados. Existem várias estratégias em vigor para tentar reverter essa situação. Uma delas é um programa de computação que ‘prevê’ possíveis conflitos, com base em informações coletadas através de mídias sociais. Outra linha de ação envolve ainda mais a comunidade. Pessoas, que no passado faziam parte de gangues, são contratadas para dar palestras em escolas e ajudar a polícia a entender como os bandos recrutam novos membros.

Nem o judiciário, nem o serviço social e tampouco o sistema prisional desta ilha são perfeitos. Longe disso. Entretanto, estatísticas do governo revelam que, em 2006, havia 100 mil crianças e adolescentes (entre 10 e 17 anos) nas prisões daqui. Este número caiu dramaticamente. Em 2013, eram 27.854 presos na mesma faixa etária. Resultado de uma política de prevenção de criminalidade. Ao que tudo indica, menos condenação e mais compreensão tem dado resultados.




quarta-feira, 8 de abril de 2015

Requiem para Marjorie

*Da Gaveta


Na páscoa de 2012, perdi uma amiga. Uma das pessoas mais interessantes que conheci na Inglaterra. Foi embora, aos noventa e seis anos, contrariada. Tinha resolvido que ia viver até os cem, para receber um telegrama de felicitações da Rainha. Este post é para manter viva a memória de uma senhora muito especial, que tinha a mania de gostar da vida e de ser independente.



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Sessenta e cinco degraus separam a rua do quarto miserável onde a família se espreme no tempo que separa as duas grandes guerras. No corredor, um fogareiro; as meninas dividem a cama e uma cortina fina e encardida protege a intimidade do casal. Lá em cima, luz de lampião. Luz elétrica só no salão de bilhar, no andar térreo onde o pai trabalha e as mulheres são proibidas de entrar.


Sessenta e cinco enormes degraus, que só existem na memória de menina, que ela revisita há quase noventa anos. Eles vieram abaixo para dar lugar à expansão da estação de Clapham, no sul de Londres muitas décadas atrás.




Sessenta e cinco degraus que estão prestes a desabar mais uma vez, quando a memória se apagar para sempre. Marjorie está exausta, mas continua no comando, como nunca deixou de estar. Já é quase hora de partir. Os lábios tão secos já não conseguem mais cobrir a boca. Os dentes estão expostos e as rugas se fazem couro ressecado. O corpo magérrimo sustenta um fio frágil de vida. O presente não é bom. Ela abre a caixa de
reminiscências. O passado é mais seguro. As histórias já ouvi várias vezes. Sempre na mesma sequência. Sempre com as mesmas palavras. Repetir, repetir, como uma criança, que pede para ouvir o mesmo Conto de Fadas todas as noites. O passado é mais seguro.


No quarto de hospital, só uma cortina a separa da paciente na cama ao lado. Ela não se preocupa com privacidade. Os assuntos terrenos já não são importantes. Com a voz fraca, me conta as histórias uma última vez...


Marjorie está ao pé da escada. Ela pensa se já está na hora de subir os sessenta e cinco degraus. Está entediada e brinca de acender e apagar a luz. O interruptor é daqueles antigos. Um fio que desce dependurado do teto. Ela aperta o botão, aperta de novo e de novo. Até que leva um empurrão, que a faz subir os sessenta e cinco degraus, sem parar para tomar fôlego. Ela chega ao topo convencida de que foi um dos homens, que frequentava o salão de bilhar. Só anos depois, ela se dá conta que tinha levado um choque elétrico, ela fala como se tivesse acabado de juntar os pontos da história.


Menina cheia de energia, confinada num cubículo, filha de mãe religiosa, severa e reservada e de pai ausente, que sempre achava tempo e dinheiro para ir ao pub depois do trabalho, Marjorie vivia se metendo em encrencas e acabou conquistando a fama de incorrigível.


Quando tinha oito anos, todas as crianças da rua só falavam de um refrigerante novo que tinha chegado ao mercado. Marjorie sonhava em provar a novidade. Pedir para a mãe estava fora de questão; a bebida custava seis centavos de libra! Outra menina da rua, Maggie Smith, se ofereceu para comprar o refrigerante para Marjorie. Elas foram até a casa da menina. A mãe dela estava na cozinha e as duas foram direto para o quarto dos pais. Maggie levantou o colchão, tirou seis centavos de dentro de um saco de moedas e deu o dinheiro para Marjorie.


Marjorie nunca me contou que gosto tinha a bebida. Mas ficou com um sabor amargo na boca para sempre. Invariavelmente ela terminava a história num tom de contrição dizendo: ‘ foi neste dia que me tornei uma ladra’. Ah, os pecados que gente não perdoa...


A mãe de Marjorie engravidava e perdia os bebês com a mesma facilidade. Ela queria muito um menino. Marjorie sabia disso porque a irmã mais velha, Bernice, havia contado para ela. ‘Minha mãe nunca conversava comigo, só com minha irmã mais velha e com a mais nova’, ela me contou várias vezes. E depois ela continuava a história; 'naquele tempo, você sabe, as mulheres tinham filho em casa. Um dia minha mãe gritou muito. Depois apareceu a parteira com o bebê enrolado num pano e minha mãe berrou de trás da cortina: Marjorie não pode ver. Só mostre para Bernice'. Mais tarde, Bernice contou que o bebê estava preto.



Marjorie não tem ideia de quantos filhos sua mãe perdeu. Ela se lembra de voltar para casa um dia e ver a mãe assentada perto da janela, muito triste, com o olhar vago, a cabeça raspada e todos os dentes arrancados. Um médico teria dito para a mãe dela que o único jeito de salvar o bebê, que ela carregava, seria cortando todo o cabelo e extraindo todos os dentes da boca. Marjorie faz uma pausa e revela pela primeira vez que ainda guarda a trança da mãe em algum canto da casa, e que ela não se lembra mais aonde. Depois suspira e acrescenta: ‘guardei este cabelo por tantos anos e em breve ele não vai fazer sentido para mais ninguém'...


Marjorie agora é adulta. Ela consegue um emprego de desenhista de projetos. Era só trabalho, ela diz. O chefe dela tem uma filha famosa, uma atriz e bailarina chamada Moira Shearer, que estrelou um filme chamado The Red Shoes. O pai de Moira a leva ao ballet uma noite. ‘Ele era um homem muito distinto. Estendeu os braços, com uma autoridade que eu nunca tinha visto e chamou um táxi. Eu nunca tinha entrado num táxi’, ela conta. ‘Jamais teria tido coragem de chamar um táxi’. Eles vão ver uma apresentação de Margot Fontyen. Depois do espetáculo, vão os quatro comemorar: Moira, o pai, Margot Fontyen e Marjorie vivendo seu dia de Cinderela.

Cena do filme 'The Red Shoes' 

O escritório, onde ela trabalhava, ficava no andar acima do gabinete onde Churchill despachava. Ela topou com o homem algumas vezes, até que a situação em Londres ficou perigosa demais por causa dos bombardeios. Os anos da Segunda Guerra foram os anos dourados da vida de Marjorie.


Marjorie foi levada para o norte da Inglaterra, em Yorkshire, longe das bombas. Foi morar com uma fazendeira amorosa, cujo marido tinha ido defender o país. Durante o dia, ela e a família trabalhavam duro. À noite, as mulheres se assentavam na sala e ouviam atentas as notícias de guerra pelo rádio. Elas rezavam para que o homem da casa voltasse inteiro e respirando.


A casa era cheia de crianças e de vida. Mesmo durante a guerra, na fazenda não faltava comida. Um dos meninos costumava levar nozes para ela. Vinha com as mãozinhas imundas e um sorriso no rosto. O outro menino havia perdido um olho num acidente na fazenda. ‘Antes de dormir, ele usava a ponta de uma caneta para retirar o olho de vidro e colocar num copo. Trocamos cartas até a morte dele. Mesmo com um olho só, ele viveu uma vida plena e feliz’.


Os vizinhos se juntaram e compraram uma bicicleta para Marjorie. Foi o primeiro presente que ganhou na vida e o mais valioso de todos, o que ela nunca esqueceu. A bicicleta foi seu salvo-conduto para novas descobertas. Nos fins-de-semana, ela, que havia passado a infância claustrofóbica sessenta e cinco degraus acima, experimentava os espaços abertos e o ar livre. Saía pedalando assim que sol raiava e só voltava antes de escurecer.

Marjorie recebeu quatro propostas de casamento. A todas deu a mesma resposta: não seria apropriado. Ainda mocinha ela saiu com um rapaz. ‘Ele foi um bruto. Voltei para casa e minha mãe quis saber por que meu vestido estava amassado. Nunca contei’. A experiência traumática foi decisiva. Mas também ela não era mulher de obedecer a homem nenhum. Marjorie tinha alma que não se tranca.


Depois da guerra, ainda jovem e independente, sem filhos e outras obrigações, ela passou alguns verões nos Alpes suíços e austríacos, fazendo o que mais gostava, celebrando a natureza. Tinha adquirido o gosto pelas montanhas e o ar puro. Os espaços abertos combinavam com ela.

Hoje fui ao hospital me despedir. Marjorie foi internada há menos de uma semana. Foi tudo rápido. Descobriram que um câncer está lhe comendo o pâncreas. Até duas semanas atrás, ela estava bem, se virando sozinha. Marjorie tinha horror de ir parar num asilo claustrofóbico, cheio de regras, que não eram as dela.


Ela está partindo como sempre viveu; em seus próprios termos. Dona de seu destino.
 (Abril / 2012)



* Da Gaveta:
Toda redação de TV tem o que o jargão jornalístico chama de ‘matéria de gaveta’. Reportagens digamos, nem tão factuais assim, que o editor-chefe ama em dias fracos de notícias.  O Da Ilha também tem suas histórias ‘da gaveta’. São impressões de quando eu ainda era novata no Reino da Rainha.

terça-feira, 24 de março de 2015

Pedalar é preciso




Volta e meia minha filha de dez anos pergunta quando é que ela vai poder dirigir um carro. Quem não se lembra de torcer para o aniversário de dezoito anos chegar logo, só para tirar a carteira de motorista? É um dos muitos ritos de passagem na vida de um jovem. Ou pelo menos costumava ser.


Um estudo da Schroders, que é uma empresa de investimentos, aponta para uma mudança nesta tendência na Inglaterra. Já não é de hoje que a indústria automobilística sabe que as vendas de carros atingiram o pico nos países industrializados (exceto a Alemanha) e mais, estes mercados apresentam sinais que podem ser de declínio. Existem várias explicações para a mudança de comportamento destes consumidores. Fatores culturais e sociais, impulsionados pelo aumento do uso de tecnologia, teriam um papel importante.


Os jovens ingleses já não têm a mesma relação com o carro, que seus pais tiveram na idade deles. O carro deixou de ser símbolo de status. De objeto de desejo passou a ser apenas meio de transporte. O aumento de smartphones e das mídias sociais teve um impacto profundo nesta mudança de comportamento: é mais fácil se comunicar, ainda que virtualmente. Um estudo da Universidade de Michigan indica que o uso maior da internet coincide com a queda do número de jovens tirando a carteira de habilitação. Sem falar que o jovem do milênio valoriza mais o último lançamento de um aparelho eletrônico do que um carro. As vendas online também contribuíram para a diminuição de carros na rua. Não é mais necessário sair de casa para fazer compras. O que se observa claramente nas ruas inglesas, com várias lojas desocupadas, embora este seja assunto para outro post.
Dirigir no centro de Londres não é exatamente divertido. O motorista tem que pagar um pedágio eletrônico, chamado Congestion Charge, que custa em torno de 55 reais por dia! Estacionamento é um pesadelo logístico: não só é raro, como igualmente caro e, para complicar, o trânsito não anda. Mas quem precisa dirigir em Londres com um transporte público como o deles?
Diariamente são 24 milhões de jornadas em ônibus, no metrô, trens e nos barcos que cruzam o rio na capital inglesa. O metrô de Londres é antigo, tem uma malha extensa e que dá sinais de cansaço, apesar dos investimentos constantes. Toda manhã, o jornal local da BBC fala da situação do trânsito e o funcionamento do London Underground. É rara a semana em que todas as linhas estão funcionando sem atraso. A pontualidade britânica, no quesito transporte público, é mais um mito urbano. Quem depende dos trens para chegar ao trabalho sabe disso. No horário de rush, os vagões circulam lotados. Nos poucos dias de verão, o passageiro assa nos trens. Se neva, eles param. Se está muito quente, param também. Para quem usa todo dia, o transporte público é um mal necessário e, como os estacionamentos, caro. Por essas e por outras (a cidade precisa diminuir a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera), Londres tem investido nas ciclovias. E não é de hoje.
O plano começou com o prefeito anterior, que era da oposição (partido trabalhista). Mas foi o atual prefeito, Boris Johnson, quem capitalizou com as propostas. Ele ganhou muitos pontos ao espalhar pela cidade as bicicletas de aluguel, batizadas de ‘Boris Bikes’. Lançado em 2010, o esquema, atualmente patrocinado pelo Banco Santander, é cada vez mais popular. Começou com pouco mais de seis mil bicicletas. Hoje são mais de dez mil, espalhadas em setecentos pontos pela cidade. Elas representam mais de dez milhões de jornadas anualmente. O usuário pode usar o cartão de crédito e a primeira meia hora é de graça.
 
Além das bicicletas de aluguel, um projeto ambicioso e polêmico é a ‘ Superhighway’. A expectativa é que três mil ciclistas por hora utilizem a nova via. O que significa reduzir dez trens e quarenta e um ônibus por hora nas rotas mais lotadas do centro de Londres. O plano é diminuir a poluição e melhorar a saúde da população, não só a dos ciclistas.

 

Imagem de divulgação



O interessante é que nenhum partido político se opõe à expansão das ciclovias na capital. Pelo menos não abertamente. O projeto tem amplo apoio popular. Mas, até chegar a esse ponto, foram várias pedras no caminho. Os comerciantes reclamavam que as faixas exclusivas iriam afetar o já escasso espaço para estacionar os carros e, com isso, afastar os clientes. Talvez o grupo que tenha gritado mais tenha sido o dos motoristas de táxi. Londres é uma cidade antiga. Ao contrário de Paris, com seus largos bulevares, as ruas, principalmente do centro, são estreitas. Não foram planejadas para os carros. Os taxistas reclamam que o trânsito londrino já é caótico o bastante sem que as bicicletas atrapalhem. Reduzir o espaço ainda mais será desastroso, eles argumentam.
 
 
Gritarias à parte, a ciclovias se multiplicam pela cidade e o número de jornadas de bicicleta subiu de 270 mil em 1994 para 580 mil em 2011. Estima-se que a capital tenha hoje mais de 150 mil ciclistas. Ciclista vota e, mais do que isso, é uma turma que se organiza e reivindica.
 
Em novembro de 2013, Londres viveu uma temporada especialmente trágica para os ciclistas. Seis morreram em acidentes em apenas duas semanas, elevando para 14 o número de vítimas fatais na capital naquele ano (nove acidentes envolviam caminhões e vans). Duas semanas após o último acidente, mil ciclistas tomaram as ruas de Londres para protestar e fazer uma vigília pelos mortos. Numa pesquisa realizada na época, um quinto dos ciclistas afirmou que iria deixar as bicicletas em casa, porque Londres não era uma cidade segura para pedalar.



Protesto em Londres
 


A paulista Debi Chobanian é uma empresária do ramo de traduções e interpretações. Ela combina o uso da bicicleta com o transporte público para visitar os clientes e garante que é seguro pedalar em Londres. Mas adverte: o ciclista deve ficar atento. Ela diz que já viu pessoas usando celular enquanto pedalavam, obviamente um comportamento arriscado. Debi é filiada à ‘London Cycling Campaign’ (LCC), uma instituição com doze mil membros, dedicada a transformar Londres numa cidade melhor para os ciclistas.
 
No site da LCC, é possível acompanhar o progresso das prometidas ciclovias e as campanhas, que visam dar mais segurança para os ciclistas. Como, por exemplo, limitar o horário do trânsito de caminhões e vans (envolvidos na maioria dos acidentes) nos horários de pico. Quando morava no Brasil, um dia recebi pelo correio uma carta da companhia de seguros que usava para meu carro. Nela estava uma lista dos lugares ‘manjados’, onde havia um risco grande do carro ser roubado ou ter o aparelho de som furtado. Achei a carta o fim da picada. Se todo mundo sabia os pontos problemáticos, por que não faziam alguma coisa a respeito?
 
Da mesma forma, a prefeitura de Londres sabe que existem alguns cruzamentos e rotatórias mais problemáticos, onde ocorrem mais acidentes. Por isso, os ciclistas ativistas batalham para que esses problemas sejam resolvidos. Mas a briga é dura. Ouvir todas as partes e conseguir a verba necessária para promover as mudanças leva tempo. É um processo contínuo e dinâmico.




Além das ciclovias, outro projeto vai ser um sinal de que os tempos estão mudando. De que Londres aos poucos se livra dos automóveis. Uma nova ponte será construída sobre o Tâmisa. Uma obra especial, onde os carros não terão vez. Setenta e quatro designs foram escolhidos. No mês que vem, a lista será reduzida a quatro propostas. Em Julho, será anunciado o vencedor do projeto orçado em 40 milhões de libras. A nova ponte terá uma faixa de pedestre e uma dedicada aos ciclistas. Algumas das propostas parecem ter saído de um filme de ficção científica. São lindíssimas e complexas.










 
Diga lá, se você andasse ou usasse bicicleta todo dia para ir ao trabalho, você preferiria cruzar de ‘A’ a ‘B’ em linha reta, ou iria até o ‘Z’ antes de chegar do outro lado? Dê uma olhada nas fotos de divulgação. Se, como eu, você preferir uma ponte retinha, então, my friend, seu caso é de caretice total.

 



quinta-feira, 12 de março de 2015

Pamonhices

 



"Pamonhas, pamonhas, pamonhas

Pamonhas de Piracicaba[]

É o puro creme do milho verde

Venham experimentar estas delícias...” 


 


Quase toda semana a mensagem acima, gravada na década de 70, era repetida exaustivamente pelo alto-falante de um carro que cruzava minha rua em São Paulo, no fim do século passado. Junto com um cachorro que latia muito, uma mulher que falava berrando e o portão enferrujado da garagem do prédio ao lado, as pamonhas de Piracicaba faziam parte dos barulhos urbanos, que escalavam os andares e chegavam intrometidos pela janela. Era só mais um ruído que não merecia minha atenção. A minha não, mas assutou meu marido, em sua primeria visita ao Brasil. Ele não sabia uma palavra sequer em português. Na Inglaterra não tem carro com alto-falante gritando mensagens. Os ingleses são neuróticos com barulho. Tolerância zero. Aliás, até os cachorros aqui são treinados para não latir.


 
Gringo e desconfiado por natureza, ele achou que fosse alguém convocando a massa para uma manifestação popular. Talvez um novo golpe de Estado. Ele enxergava o Brasil pela primeira vez com olhos e ouvidos de estrangeiro. Afinal, todo mundo sabe que na América Latina ditadores se apropriam do poder a toda hora...
 
Anos depois, já morando na Inglaterra, vivi um dos meus milhares  momentos de gringa. O Parlamento Britânico havia sido fechado. Deu no noticiário. Até tu, Brutus?  A pamonha aqui largou o que estava fazendo para ficar colada em frente à tevê. Depois morri de vergonha. Além de gostar de privacidade, os ingleses adoram tradição. A ‘abertura’ do Parlamento é apenas mais um ritual do calendário britânico.
 
 

 


 

 

 


Dona Rainha Elizabeth, com sua coroa cintilante, sai de seu palácio real a bordo de uma relíquia sobre rodas, puxada pelos cavalos mais majestosos e lustrosos de todo o reino. Ela segue escoltada pela cavalaria, acenando (raramente) para os súditos e turistas pelas avenidas da capital, até chegar a Westminster. A ‘abertura do Estado’ acontece não só no começo do ano parlamentar, mas também logo depois que um novo primeiro-ministro assume o cargo. É a única ocasião em que os três poderes constitucionais (soberano + casa dos lordes + casa dos comuns) se reúnem. Para quem está se perguntando onde fica o primeiro-ministro nesta festa, uma explicação: ele é, antes de tudo, um parlamentar, portanto, também está na lista de convidados.


                    

A Rainha chega ao Parlamento e entra pela porta dos soberanos, sim existe isso. Depois ela é levada à ‘sala dos robes’ (também não estou inventando), onde veste um manto real. De lá, caminha até a Galeria Real (tá ficando repetitivo), onde seiscentos convidados a esperam. Então, o ‘Black Rod’, que é um funcionário sênior da Casa dos Lordes (uma espécie de senado) é enviado para convocar os parlamentares da ‘Casa dos Comuns’ (o equivalente à Câmara Federal). Chegando lá, os parlamentares batem a porta na cara do emissário. Uma prática, aparentemente malcriada, que existe desde a Guerra Civil (século XVII), simbolizando a independência da Casa dos Comuns da Monarquia. O ‘Black Rod’ usa um cetro para bater na porta três vezes. Se olhar bem, dá para ver o estrago que essa tradição fez na madeira da porta ao longo dos anos.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Os ‘Comuns’ acompanham o ‘Black Rod’ até a ‘Câmara dos Lordes’ e, de pé, escutam o discurso da Rainha. Ela confortavelmente (vai ver que não) assentada em seu trono real.
 
 
 
 
 
 
 

 


O texto, escrito pelo governo, contém as propostas políticas para o legislativo no ano que se inicia. É uma cerimônia lindíssima, rica em simbolismos, pompa e circunstância. Um ritual afinado com o passar dos anos.


 

 
 




Quase caí pra trás quando vi pela primeira vez uma sessão do Parlamento Britânico. Um parlamentar fala e é aplaudido pelos colegas, que mexem a cabeça em sinal de aprovação. Enquanto isso, do outro lado da mesa, a oposição VAIA! Isso mesmo, eles soltam umas risadas forçadas, de quem quer ridicularizar o oponente e vaiam. Cá prá nós, é meio ridículo. Parece uma pantomima, mas faz parte do show deles. Qualquer um pode visitar o Parlamento, mas assisti à cena no canal que transmite as sessões, como numa TV Senado. Fiquei esperando o momento em que eles iriam sair no tapa. Mas não tem agressão física e nem outras baixarias pessoais. O que custei um pouco a perceber, é que havia sim conflito, mas de ideias, de posições políticas. O ‘telequete’ tem suas regras. As mães alheias ficam de fora e não se ameaça a integrigade física de ninguém. Egos podem sair feridos, mas não tem olho roxo.

 

Os ingleses aprendem cedo a participar da vida pública. O dia nas escolas começa com uma assembléia. As crianças se reunem num salão ou no auditório da escola. Nestes encontros, muitas vezes um aluno é convidado a falar para a escola inteira. Pode ser para mostrar uma medalha que ganhou no futebol, ou simplesmente porque tem um recado a dar. Adoro o modo como as crianças desta ilha se expressam. Elas são articuladas, são ensinadas desde pequenas a defender um ponto de vista e a argumentar. Faz parte da tradição de debate e de expressão desta cultura.

 

O exemplo mais batido deste caso de amor com a liberdade de expressão é o ‘Speakers' Corner’ , a esquina da oratória no Hyde Park, bem no centro de Londres. Ainda hoje em tempos internéticos, o sujeito, ou a sujeita, que acha que tem uma mensagem que vale ser compartilhada com o mundo, pega sua escadinha, sobe nos degraus e solta o verbo. Religião e política são os temas mais populares, como era de se esperar. O interessante é que o lugar escolhido foi um dia o palco de execuções públicas por enforcamento.

 

Tem gente que acredita que se pode falar o que quiser no Hyde Park. O ‘Speakers’ Corner’ seria uma espécie de ‘pique’, aquele canto que no pega-pega de criança oferece uma imunidade temporária. Mas não é bem assim. O teor do discurso não pode ser ilegal, incitar ao ódio ou à violência e, se ofender alguém diretamente, o orador é passível de processo de difamação, como em qualquer outro lugar. A tradição começou no século XIX, depois de uma revolta popular contra a proibição da abertura do comércio aos domingos, o único dia em que os trabalhadores podiam ir às compras. O resultado dos protestos foi que os cidadãos ganharam o direito de se pronunciarem no Hyde Park. Desde então é o lugar para o debate público, discursos, protestos e manifestações. Por lá passaram Karl Marx, Vladimir Lenin e o grande irmão George Orwell. Qualquer um pode usar o espaço para se expressar.

 



 




Já faz uns anos, mas me lembro de ler todas as manhãs na sessão carta do leitor do Metro News, uma discussão sobre quem eram os melhores trabalhadores, os Oompa Loompa, da Fantástica Fábrica de Chocolate ou os irritantes Munchkins, do Mágico de Oz. Esse debate e outros, como quem levaria a melhor numa briga entre o Capitão América e o Super Homem, durou semanas. Era ridículo, mas os argumentos eram engraçadíssimos e bem escritos. Bem mais interessantes do que o mais recente casamento de Katie Price (quem?) ou a cara amarrada de Victoria Beckham.
 



 

 

 

 



 

 

 


Logo que vim morar na Inglaterra, fiz um curso de inglês. A escola organizava eventos e excursões. A explicação oficial era que essas atividades ofereceriam ao aluno uma oportunidade de imersão na cultura local. Seja como for, eram uma baita isca para quem não estava assim tão interessado numa sala de aula.


 

 
 Cheguei a ir a um ‘pub quiz’, que é quase uma instituição britânica. Cada mesa organiza seu time. Todo mundo paga um pouco para tomar parte no jogo. O dono do bar lê as perguntas, como num jogo de Máster. A mesa vencedora recebe o bolão e gasta tudo em cerveja. Da última vez em que fui a um destes eventos, o organizador ameaçou confiscar os celulares dos participantes, antes do jogo começar. Todo mundo se fingiu de morto; ele percebeu que perderia fregueses e se deu por vencido. O ‘pub quiz’ virou um campeonato do dedo mais rápido do oeste, de quem conseguia achar a resposta no google em menos tempo e sem dar muita bandeira.
 
Mas voltando ao tempo de estudante. Fui com meus colegas a um pub participar do ‘jogo do balão de ar quente’. Funciona assim: você pode escolher quem quer ser, qualquer personagem que quiser incorporar –  tem sempre um que apela e escolhe ser um cientista, que está prestes a desvendar a cura definitiva para o câncer.
 
O balão está pesado e com problemas. Um dos passageiros vai ter que ser sacrificado, senão todos vão morrer. Cada participante tem um tempo para fazer seu discurso e defender a própria pele. “Eu mereço viver porque...” Se os argumentos não colarem, tchauzinho. Achei a brincadeira espetacular mas fiquei passada em pensar como é que alguém sai de casa para beber e, voluntariamente, toma parte num jogo destes. O cientista salvador da pátria foi o primeiro a se espatifar no chão. Não sabia juntar sujeito com predicado. Coitado. Um a um os competidores foram saindo do jogo. Se me lembro bem, ganhou o espertinho, que prometeu pagar uma rodada para a turma. Ah, o apelo irresistível de Baco...
 
Ser imigrante nem sempre é um passeio no parque. Quando a gente se depara com as diferenças e com aquilo que não compreendemos, dá uma saudade enorme de casa. Nosso país de origem passa a ser o melhor e mais desejado lugar do mundo. Mesmo quando não é bom, melhor escolher um diabo conhecido do que um estranho. Tem a fase das comparações e a do deslumbramento. Tudo ao mesmo tempo, sem muita ordem. Apesar da confusão interna, viver no exterior é também uma oportunidade enorme de aprendizado e um exercício de adaptação.
 
 
Não sei o que tem lá na frente e não acredito mais em bolas de cristal. Gosto de pensar que, se algum dia for morar em outro país, levarei comigo o amor dos ingleses pelo debate, sem medo do confronto de ideias e sem sair chutando o pau da barraca. Irá na minha bagagem também a memória dos sons, que entravam sem convite pela minha janela, num país muito mais ensolarado.