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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Governo Caça Gazeteiros



Sabe uma coisa que não se vê nas ruas inglesas entre nove da manhã e três da tarde? Crianças em idade escolar. Como aqui não existe turno da manhã e turno da tarde, todas vão para a escola na mesma hora.

 

O colégio da minha filha teve um ‘inset day’ (um dia sem aulas em que os professores se reúnem para planejar e discutir estratégias) no meio de uma semana qualquer, quando todas as outras escolas funcionavam normalmente. Fomos fazer compras e três pessoas fizeram comentários do tipo: matando aula, hein! Que sortuda. Eu quase me vi na ridícula situação de ter que justificar para estranhos a presença dela na rua em dia de aula.

 

No segundo semestre, todos os anos os partidos políticos realizam suas convenções. Esta é a semana do partido conservador, atualmente no poder. As convenções são importantes para saber o rumo que cada partido anda tomando, suas políticas e observar quem sobe e quem desce no jogo político. A imigração foi um tema polêmico como era de se esperar. Mas os gazeteiros e suas famílias também estiveram no centro das discussões.

 

Desde de 2013, o governo vem apertando o cerco aos gazeteiros. Não é raro por aqui ver famílias que marcam viagens de férias para o exterior em período de aula. Dá até para entender. Os pacotes são três vezes mais baratos. Para acabar com o oba-oba, as escolas agora emitem uma multa de £60 libras (cerca de R$360) para as ausências não autorizadas. Os pais têm vinte e um dias para pagar a multa. Depois de 28 dias, o valor dobra e, se não for pago, o caso vai parar nos tribunais.
 


Frequência escolar importa diz o cartaz

 

Matar aula, é óbvio, tem um impacto no aprendizado. Entre os adolescentes, que faltam mais de 28 dias de aula por ano, menos de 17% atingem o nível esperado de inglês ao final do segundo grau. Entre os que não perdem aulas, este número sobe para 44%.




 

No ano passado, 16.430 casos de ‘ausência não autorizada’ foram parar nos tribunais. Pouco mais de nove mil tiveram que pagar multas. O governo anunciou esta semana que se as famílias de baixa renda não puderem pagar as penalidades, o valor será descontado do ‘child benefit’, o bolsa família deles. Associações de professores reclamaram que a medida vai colocar ainda mais pressão nas famílias pobres, que dependem do dinheiro para sobreviver. Mas o primeiro-ministro David Cameron não arredou o pé. Para ele, é simples: certifiquem-se de que seus filhos compareçam às aulas e evitem a multa.

 

Em 2013, Claudia Ward, uma mãe solteira de seis filhos foi condenada a vinte semanas de prisão, porque seus filhos não iam a escola. Ela deixava que as crianças escolhessem quando e se queriam ir, porque achava que escola era entediante e que eles aprenderiam mais brincando na praia ou passeando pela floresta. Depois de passar um tempo na cadeia, longe dos filhos, ela deu uma entrevista dizendo que tinha errado.

 

Tem um elemento nesta história que ninguém gosta de falar abertamente, porque soa politicamente incorreto. Mas as estatísticas revelam que os maiores gazeteiros não são os que saem de férias em pleno período escolar. São os que recebem merenda de graça nas escolas (benefício dado às famílias de baixa renda). Educação é fundamental para quebrar esse ciclo de pobreza. Comparecer às aulas é o primeiro passo. Não há o que se discutir.

 



 

O problema é que as vezes o que parece ser  preto no branco não é tão simples assim. Muitos pais se revoltaram com o endurecimento nas regras que punem os gazeteiros. Levar o filho de férias durante uma semana não vai tornar ninguém burro, vai? Existem fóruns e mais fóruns na internet sobre o assunto. Teve o caso de uma família que recebeu uma multa porque o filho perdeu alguns dias de aula para comparecer ao casamento da própria mãe, em outra cidade. Teve a história de um militar que nunca tinha tido umas férias com o filho de nove anos, porque o exército não o liberava no período das férias escolares. Ele levou a família para o exterior num pacote turístico de uma semana e foi surpreendido com a multa, quando chegou em casa. Entrou com uma apelação e perdeu o processo.

 

Semana passada ganhou as manchetes o caso de um menino de nove anos que perdeu muitos dias de aula depois da morte do pai. O pai foi atropelado por um motorista bêbado, enquanto andava de bicicleta. A administração regional ameaçou levar a mãe do garoto a julgamento. Ela disse que o menino não estava matando aula e sim, que estava de luto pelo pai. Foi um bafafá nas redes sociais e o caso contra a mãe acabou sendo cancelado.

 

Falta de bom senso, né?  O tal do bom senso é a coisa mais relativa que existe. A lei tem que valer para todos. Ou não?  Faz uns anos, minha filha participou de uma colônia de férias no Brasil. No último dia ela chegou atrasada. As crianças estavam saindo da piscina para fazerem outra atividade. Ela chorou porque queria nadar. O monitor do grupo chamou outro rapaz e disse: "leve essas crianças para a outra atividade. Eu vou em seguida." Depois disse para os meus sobrinhos, que estavam lá, que eles poderiam ficar mais um pouco, para nadar com a prima. Ele havia resolvido o problema da minha filha, sem o menor drama. Ninguém reclamou. Simples assim. Depois de anos vivendo aqui, fiquei comovida com a gentileza dele. Se fosse nesta Ilha, não teria negociação. Ela tinha chegado atrasada e não deveria criar problemas.
 
 Pode ‘a lei é para todos’ conviver com o ‘bom senso’? Isso é o começo da corrupção? Ou é o começo de um mundo chato?

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Questão Moral



Na estação Liverpool Street em Londres, uma estátua de bronze chama atenção. A cena retratada é doce: cinco crianças com expressões de deslumbramento nos rostos. Uma delas carrega um ursinho de pelúcia. Mas a história por trás da obra de arte é muito dura. Durante nove meses entre 1938 e 39, cerca de dez mil crianças judias foram mandadas sozinhas (sem os pais) para esta Ilha. Chegavam num trem apelidado de ‘Kindertransport’ (transporte de crianças). A maioria vinha de países como Alemanha, Áustria e Polônia. Elas seriam hospedadas em casas de famílias inglesas durante a Segunda Guerra Mundial. As crianças foram recebidas num clima de ambiguidade. O jornal Daily Mail (que continua conservador até hoje) denunciou, na ocasião, o que considerava um grande erro histórico. Afinal, segundo a publicação, este era um país cristão e o problema dos judeus não dizia respeito às pessoas da Grã-Bretanha.



Kindertransport Liverpool St Station




Esta postura “ema-ema-ema, cada um com seu problema” prevalece em grande parte da sociedade civil deste país e em tantos outros países europeus, no que diz respeito ao êxodo maciço de pessoas, principalmente da Síria, norte da África e Afeganistão.  A questão é que três em cada quatro eleitores britânicos acham que esse país já recebe estrangeiros demais. Semana passada saíram os números da imigração nesta Ilha. As estatísticas mostram que entrou mais gente do que saiu: a diferença entre os que deixaram o país e os que imigraram para cá é de 318 mil no último ano. Apenas dois mil a menos que em 2005, quando o Reino Unido abriu suas portas para oito novos membros da Comunidade Europeia. Só para colocar estes números em perspectiva: o Reino Unido (Inglaterra, País de Gales e Escócia) tem uma área em quilômetros quadrados que é menos do que a metade do estado de Minas Gerais.


O ponto é que a questão da imigração e a dos refugiados são percebidas pela maioria da população como a mesma coisa. O tema da imigração é vasto, dá muito pano para manga em vários posts. Para que este não fique longo demais, resolvi tentar me concentrar na questão dos refugiados. Os jornais usam as palavras ‘imigrantes’ e ‘refugiados’ como se as duas coisas fossem sinônimas, o que não são.




Em 1951, depois da Segunda Guerra Mundial, uma convenção criou o Estatuto dos Refugiados. O documento da ONU recebeu uma emenda em 1967, quando aumentou os direitos daqueles que procuram asilo em outros países. Cento e quarenta e oito países, incluindo o Brasil, são signatários dos dois documentos. Os Estados Unidos não concordaram com a reforma de 1967, para eles vale o que está escrito apenas na versão inicial.
 


Refugiado, ao contrário do imigrante, foge de seu país de origem para tentar escapar da guerra ou perseguições que colocam sua vida em risco (sejam elas religiosas, raciais ou políticas). O risco tem que ser comprovado. E, uma vez admitido, não pode ser mandado de volta para seu país.








O drama dos refugiados sírios, retratado pelo fotojornalista Valnei Nunes*




Os sírios teoricamente têm o status de refugiados, porque a guerra civil em seu país, que já dura quatro anos, matou pelo menos 300 mil pessoas. Desabrigou mais de 11 milhões de cidadãos. Quatro milhões deles já deixaram o país e têm uma existência de pobreza e falta de perspectiva de futuro em campos espalhados nos vizinhos, Líbano, Turquia e Jordânia.



Os números são alarmantes, na mesma proporção em que são desprovidos de alma. Como se a matemática tornasse banal o desespero e o medo de quem vive o horror da guerra. Estamos acostumando nossos olhares a ver aquelas pessoas como pobres vítimas da miséria, nos esquecendo de que um dia cada um deles teve uma vida de normalidade. Que saiam para o trabalho. Que suas crianças frequentavam escolas. E, que principalmente agora tudo é incerteza.





Campo de refugiados - Foto: Valnei Nunes


Há também os que se arriscam pelo Mediterrâneo, na esperança de reconstruírem suas vidas em solo europeu. A crise ficou mais evidenciada no início da primavera e no verão, quando o tempo menos inclemente favorece a travessia. Toda semana, assistimos na tevê histórias de naufrágios e pessoas se afogando em proporções bíblicas. Vimos equipes de resgates usando máscaras nos rostos para suportar o mau cheiro da pobreza e da degradação humana.


Ninguém é imune a estas imagens. Mas precisou de uma ainda mais forte para que líderes como o primeiro-ministro David Cameron recuassem em seus discursos linha dura: a foto do menininho sírio de três anos, que morreu afogado junto com sua mãe e irmão ao tentar chegar na Grécia. Até então, o governo britânico vinha dizendo que não iria receber sua cota dos refugiados que chegam aos milhares e se espalham pela Europa. Ontem virou o disco, disse que este país vai cumprir seu papel de responsabilidade na crise humanitária. Anunciou  hoje que vai receber milhares de refugiados sírios. Quantos, ainda não se sabe ao certo.


O discurso oficial que vem sido repetido exaustivamente nos últimos dias na mídia é que este país manda mais dinheiro do que todos os outros membros da Comunidade Europeia para manter os campos de refugiados sírios. Eles entendem que receber os cidadãos  expulsos pela guerra não resolve o problema. Não gostam da posição adotada pela chanceler alemã Angela Merkel de abrir as portas de seu país aos refugiados. Segundo o governo de David Cameron, isto só incentiva outros refugiados a optar pelo mesmo caminho e assim agravar a crise em solo europeu.




Refugiados na Turquia - Foto: Valnei Nunes




 Resolvi não usar neste post a imagem tão repetida nos últimos dias de Aylan Kurdi com o rostinho enfiado na areia da praia, ou a de seu corpo sendo carregado por um policial. As imagens têm poder, mas nesta era midiática, os reflexos duram apenas o tempo de um novo viral. Ouvindo o rádio hoje, fiquei comovida ao saber que grupos de pessoas aqui na Ilha estão se organizando para receber refugiados em suas casas. Por mais que este gesto seja uma gota no oceano do miserê humano que estamos presenciando, ele restaura um caquinho de fé na capacidade humana de se compadecer e de ser capaz de se colocar de fato no lugar do outro. Que os trilhos da Europa se abram para outros ‘Kindertransport’. 
 
 
 
*Valnei Nunes esteve num campo de refugiados sírios na fronteira com a Turquia e gentilmente cedeu algumas de suas fotos para este post. Para conhecer mais sobre seu trabalho: http://www.valneinunes.com/

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Arco-íris retumbante






Bandeira do orgulho gay


 
 
 
Tive um encontro inesquecível durante um evento sobre meninos de rua, promovido pela Unicef em São Paulo. Foi com uma das representantes do órgão no Brasil. Pior é que não me lembro do nome dela (uma injustiça da minha memória). Eu disse que admirava o trabalho que eles estavam fazendo e perguntei se ela honestamente acreditava que um dia não veríamos mais crianças vivendo nas ruas de São Paulo. Ela respondeu que sim e acrescentou: às vésperas da abolição da escravatura no Brasil, se alguém dissesse que os escravos seriam libertados, pouca gente acreditaria. As mudanças acontecem. Infelizmente quase nunca no passo que gostaríamos. Mas elas acontecem. Quando leio as notícias do dia e fico com vontade de chorar de desânimo e tristeza, penso neste breve encontro de anos atrás.

 

Pensei nesta mulher mais uma vez no fim-de-semana. Os irlandeses, frequentemente taxados de católicos retrógrados, votaram um ‘big fat yes’ , um sim com letra maiúscula, para a legalização do casamento gay. Dezenove países já atravessaram essa ponte, mas foi a primeira vez em que o assunto foi definido pelo voto popular, através de um referendo. O voto não era obrigatório, mas ainda sim o comparecimento às urnas foi alto (passou dos 60%). Muitos irlandeses, que não moram mais na Irlanda, fizeram questão de voltar ao país só para votar. O resultado não poderia ser mais claro: 62.1%  ( mais de 70% em Dublin) disseram que queriam que a constituição fosse alterada, para legalizar o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. O não venceu em apenas um pequeno distrito eleitoral numa área rural.

 
 


Cartaz de Campanha
 
 
 
 

O jornal 'The Independent' publicou um artigo escrito por um ativista irlandês homossexual, às vésperas da votação. No texto, Ross Golden Bannon narra as dificuldades que passou durante a campanha pelo sim, batendo de porta em porta, pedindo apoio para a legalização do casamento gay. Ele fala do inferno de crescer ‘diferente’ num país católico e conservador, dos desvios que tinha que tomar para ir comprar alguma coisa, para não ter que topar com adolescentes que, na certa, iriam humilhá-lo. Para Ross, cada não que ele recebeu doeu muito. Uma nação inteira iria decidir se ele era ou não igual aos outros. Embora sem gostar, ele sabia que era parte do jogo.

 

Um jogo arriscado. Não faz muito tempo, precisamente em 1987, os irlandeses participaram de um referendo para decidir se o divórcio deveria ser ou não legal. O não venceu naquela ocasião. O sim desta vez indica que no espaço de apenas uma geração a sociedade irlandesa passou por uma transformação profunda.  O resultado do plebiscito mostra que a rachadura da igreja católica num dos países mais conservadores deste lado da Europa é enorme. O abuso sistemático praticado por padres pedófilos e sádicos durante anos (e com o conhecimento do alto clero irlandês) agora paga seu preço. A igreja católica foi o poder mais influente nos primeiros sessenta anos da República da Irlanda, moldando governos e ditando regras culturais, morais e políticas no país.

 

O plebiscito mostrou que o país não é mais o mesmo. O arcebispo irlandês Diarmuid Martin votou contra, ainda que afirmando que os direitos dos gays deveriam ser respeitados. Agora ele diz que a igreja católica em seu país precisa de um choque de realidade. Ele reconhece que a igreja deve tentar se reconectar com os jovens para reconquistar seu papel de autoridade moral e cultural da Irlanda. Ele se disse intrigado com o fato de que a maioria dos cidadãos que votaram sim passou doze anos estudando em escolas católicas e concluiu: a nossa mensagem não está sendo ouvida.

 

Há os que argumentam que outra pá de cal no poder da igreja católica na Irlanda foi a entrada do país na comunidade europeia -  uma poderosa alavanca econômica, que levantou o país da pobreza a um dos mais prósperos da Europa. Com a prosperidade, chegaram imigrantes e novas formas de ver o mundo. Em 1995, o divórcio foi aprovado em outro referendo. Dois anos antes, em 1993 o homossexualismo foi descriminalizado, 30 anos depois do Reino Unido.






Irlanda e Irlanda do Norte se separaram na década de 20 do século passado. A Irlanda do Norte preferiu continuar como parte da Grã-bretanha.  As disputas entre os dois países até hoje não foram totalmente remediadas, mas este é assunto para outra hora. Os outros países do Reino Unido (Inglaterra, Escócia e País de Gales) aprovaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A Irlanda do Norte se recusou a discutir o assunto. Diz que a União Civil está de bom tamanho e que casamento é só entre homens e mulheres. Qual será o peso do referendo no país vizinho sobre a questão, só tendo uma bola de cristal para saber. 
 

 

Até os anos 70 na Irlanda, a servidora pública que se casasse tinha que deixar o emprego. Era a lei. Falando em lei, até 1980, a camisinha era ilegal na Irlanda. Fico chateada de não me lembrar do nome e nem do rosto da mulher com quem falei rapidamente naquele evento em São Paulo no século passado. Pelo menos não me esqueci de sua mensagem. Mulher sabida aquela.

 

 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Zebra no dia da Vitória





Deu zebra nas eleições britânicas. A disputa parecia apertada e a aposta era que nenhum partido teria maioria, o que levaria a mais um governo de coalizão. No dia seguinte da votação, vieram as surpresas. A briga não estava assim tão acirrada. O partido trabalhista perdeu feio. Os conservadores venceram e David Cameron continua no poder, desta vez fortalecido, porque seu partido conseguiu a maioria dos assentos.  

 

Hoje o país celebra o VE Day, o dia da vitória. Setenta anos atrás, os britânicos comemoravam o fim da Segunda Guerra mundial. Para David Cameron, este vai ser um dia inesquecível. Para os líderes dos outros partidos, o dia em que políticos caíram em efeito dominó. O trabalhista Ed Miliband e o liberal democrata Nick Clegg renunciaram e entregaram os respectivos cargos, logo após a cerimônia comemorativa. Os dois visivelmente abatidos. Nigel Farage do UKIP, o partido da independencia, não se elegeu e também renunciou à liderança de seu partido.
 

 
 Enquanto eles fazem seu mea culpa, Nicola Sturgeon, a líder do partido nacionalista escocês (SNP), comemora vitoriosa. Diz que nunca sonhou com um resultado tão bom. Seu partido varreu os trabalhistas do mapa na terra do whiskey. Os escoceses odeiam os Conservadores. O desejo pela independência tem mais chances de crescer. O cenário político nesta ilha mudou radicalmente de ontem para hoje. David Cameron prometeu que, se reeleito, teríamos um referendo sobre a permanência da  Grã-Bretanha  na comunidade europeia.


 
arquivo pessoal
 
 
 

  Quem sabe na próxima eleição o Reino Unido não será assim tão unido e o país terá deixado a comunidade europeia? Se existe uma lição no que aconteceu neste país nas últimas 24 horas é que em política nada é certo, tudo é possível.
 
 
 
 


 

sábado, 2 de maio de 2015

Submarino Nuclear


 

Esqueça o submarino amarelo do Beatles. O submarino em questão na Inglaterra hoje  é outro. Não tem nada de lúdico ou divertido.

 

Transformar submarinos nucleares da terceira idade em sucata ou construir modelos mais modernos? Esta é uma pergunta caríssima. De acordo com o governo, ela vale entre 17 a 23 bilhões de libras (coisa de 78 a 100 bilhões de reais). Para os pacifistas, o custo é de 100 bilhões de libras (cerca de 450 bilhões de reais) em 40 anos.

 

Dois mais dois vão ser sempre quatro. Mas a diferença na matemática das armas nucleares mostra que cada um dos lados exibe os dados que lhes convêm. Na conta do governo, o custo estimado para construir e reformar os submarinos. E só. Detalhe, o departamento de defesa tem a fama de subestimar os custos e acabar gastando mais do que o prometido.

 

  Já para o ‘ Campaign for Nuclear Disarmament’ – CND (uma ONG para o desarmamento nuclear), os números do governo não fecham. Para chegar aos 100 bilhões de libras em quatro décadas, eles consideraram uma determinação do Ministério da Defesa de destinar entre 5 a 6% de seu orçamento com o programa nuclear, o que dá cerca de 2.4 bilhões de libras por ano (vezes 40 anos). Olharam para os custos em separado. Levaram em conta 57 bilhões de libras em custos, mais 13 bilhões para se livrarem dos submarinos ultrapassados, somados aos 23 bilhões para construir novos submarinos e, finalmente a cereja do bolo: um bilhão para as forças militares garantirem a segurança do arsenal nuclear. Noves fora aqui, noves fora ali, essa conta também soa estranha. O fato é que, mais do que o custo para o bolso do contribuinte britânico, essa discussão importa porque pode ter implicações profundas para esta ilha.

 

Na quinta-feira, dia 7 de maio, os britânicos participarão de uma eleição geral. O voto no Reino Unido é distrital. O país é dividido em 650 distritos eleitorais. O eleitor vota no parlamentar da sua região. Cada região tem apenas um representante no Parlamento. O que torna mais fácil acompanhar como  seu parlamentar vota. O eleitor não escolhe o primeiro-ministro. Na prática, o primeiro-ministro é o líder do partido com maioria no parlamento.

 

Como nada na vida é tão simples assim, o sistema eleitoral daqui tem um lado bom e outro ruim. O bom é que fortalece os partidos políticos e suas ideias. Mas às vezes põe o eleitor numa sinuca de bico. Vou dar um exemplo. Na região onde vivo, o nosso atual parlamentar é de um partido, que não tem a menor chance de fazer o próximo primeiro-ministro. Tenho conversado com algumas pessoas que reconhecem que ele faz um bom trabalho, é dedicado e acessível. No entanto, esses mesmos eleitores dizem que não vão votar nele desta vez, porque acabariam favorecendo outro partido, que não querem ver no poder. Ou seja, o dilema é: voto para o meu político local e esqueço a eleição para o cargo principal, ou escolho um candidato que não me representa localmente? 
 
 


Submarino Nuclear
 

 

Mas voltando aos submarinos nucleares. Este é um tema quente nestas eleições. Os britânicos possuem quatro navios nucleares, parte do chamado programa Tridente, que patrulha as águas britânicas.  Eles têm uma vida útil (modo de dizer) de vinte e cinco anos. O prazo de validade termina em 2020, quando poderão virar sucata e dar lugar a modelos mais jovens, ou serão recauchutados. Os dois principais partidos políticos, conservador e trabalhista são a favor de renovar a frota, sem restrições. O UKIP, o partido independente, quer salvar três dos quarto submarinos . Já os liberais democratas e o SNP, o partido nacionalista escocês, fecham com os ativistas e querem se livrar dos quatro.

 

Os argumentos são fortes de todos os lados. Para os pacifistas, com 100 bilhões de libras este país poderia produzir muita coisa boa: empregos para 150 mil enfermeiros, construção de um milhão e meio de moradias e cobriria os custos de quatro milhões de estudantes universitários. Num tempo em que todos os partidos e candidatos falam em austeridade econômica e cortes, estes números soam como música. Mas talvez o ‘X’ da questão não esteja necessariamente no bolso.

 

Continuar investindo em armamentos nucleares traz problemas morais e éticos. Ao manter o programa Tridente, este país estaria contribuindo para a escalada militar do planeta? Será que já não estaria na hora de se livrar de uma política de defesa que nasceu na guerra-fria? Que diferença os navios nucleares fazem para a defesa britânica? São muitas questões, que o eleitor deveria considerar. Afinal, caberá ao próximo primeiro-ministro e ao parlamento decidirem sobre o futuro das armas nucleares desta ilha.

 

Num documento assinado por vinte ex-membros da defesa britânica (leia-se militares aposentados) eles alertam que se livrar dos submarinos seria deixar o Reino Unido enfraquecido e vulnerável a ataques. Mais ou menos como no jogo de Super Trunfo. O jogador com a carta ‘super trunfo’ está com tudo. Esta carta vence todas as outras. Da mesma maneira, a ideia é ter os submarinos nucleares e usá-los para frear ataques ao país. Não mexa comigo, porque eu tenho a carta mais poderosa e a usarei, se você pisar no meu calo. É a velho argumento de que as armas nucleares são instrumentos de paz. Durma com um barulho desses.

 

Na história recente, mais precisamente em 1994, foi assinado na Hungria o Memorando de Budapeste. O acordo que faz parte do tratado de não proliferação de armas nucleares entre Rússia, Estados Unidos, Reino Unido, França e China. Pelo acordo, a Ucrânia concordou em abrir mão do terceiro maior arsenal de armas nucleares do mundo (herança da Ex-União Soviética). Em troca, recebeu garantias dos países, que assinaram o documento, de que sua integridade política, geográfica e sua independência estariam garantidas.

 

 Duas décadas mais tarde, no ano passado, a Rússia anexou a Criméia, parte do território ucraniano. Vladimir Putin fez picadinho do documento e agora se faz de bobo. Diz que uma coisa não tem nada a ver com a outra, porque a separação da Criméia aconteceu por causa de problemas internos na Ucrânia. A tensão na região continua alta.

 

Os que defendem a continuação do programa Tridente usam a anexação russa da Criméia para reforçar seus argumentos. Outro ponto é que os novos submarinos vão gerar mais de dez mil empregos neste país, se bem que em 2012, um dos ministros disse que sairia bem mais barato transferir a produção para as Bahamas.

 

Uma das grandes surpresas da atual corrida eleitoral é uma mulher. Nicola Sturgeon é a líder do partido nacionalista escocês e ‘primeira-ministra’ da Escócia. Ela tem dado um show nos debates políticos e, principalmente, tirado o sono dos trabalhistas, que antes eram maioria na terra do whisky. Para ela, renovar o programa Tridente, com os submarinos nucleares patrulhando a costa vinte e quatro horas por dia, é um absurdo. Ela diz que o projeto todo é inútil e indefensável. ‘Nenhum político com credibilidade pode dizer que irá usar um armamento nuclear, que matará muitos civis, de forma indiscriminada e massiva e criar uma catástrofe ambiental.’

 

Poucos dias antes da eleição, o jogo político se intensifica. O partido trabalhista de Ed Miliband apresenta uma ligeira vantagem nas pesquisas de intenção de votos. Entretanto, ao que tudo indica, nenhum partido vencerá com maioria, o que, mais uma vez, levará a uma coalizão de partidos para formar o governo. Politicamente os escoceses estão bem próximos dos trabalhistas. Nicola Sturgeon tem acenado com uma aliança com Ed Miliband. Ele tem esnobado a oferta. Ela quer um novo referendo para votar a independência da Escócia, o que não interessa aos trabalhistas. Outro ponto de discórdia é o programa Tridente. Se bem que essa semana, Nicola Sturgeon disse que isso não é motivo para o partido dela não votar com os trabalhistas em outras questões. Como se vê, nada é preto no branco. Se ao menos vivêssemos num submarino amarelo, onde todos são amigos...







 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Maioridade penal na Inglaterra





Em Merseyside, um subúrbio da famosa Liverpool dos Beatles, que  não é exatamente bonito, nem próspero,  entrou para o mapa desta vez por causa de um crime terrível, em 1993. James Bulger, um menininho de dois anos, foi às compras com a mãe. Ela entrou numa loja e, um minuto depois, o garotinho tinha desaparecido. Dois dias mais tarde, foi encontrado morto. Seu corpo não deixava dúvidas, foi uma morte violenta. Ele havia sido despido da cintura para baixo e torturado brutalmente; apresentava 42 marcas de agressões físicas graves.



James Bulger

Com a ajuda de câmeras de vigilância e de testemunhas, o assassinato foi desvendado rapidamente. Os culpados eram dois meninos de dez anos de idade: Jon Venables e Robert Thompson. A natureza e a crueldade do crime provocaram uma forte resposta da população. Mais de quinhentas pessoas foram ao tribunal exigir que Venables e Thompson fossem condenados à prisão perpétua. O caso mudou a forma como esta ilha encara os crimes cometidos por crianças e adolescentes. Os dois foram os réus mais jovens condenados à prisão, no século vinte, no Reino Unido.



Jon Venables

O julgamento foi criticado pela Corte Europeia de Direitos Humanos, que em 1999 declarou que os meninos não haviam recebido um julgamento justo. O fato é que os dois foram julgados numa Corte para adultos e saíram do tribunal como prisioneiros: deveriam cumprir uma sentença de no mínimo oito anos. Os nomes de Jon e Robert foram divulgados para o público e suas famílias tiveram que mudar de cidade e de identidade, temendo serem vítimas de justiceiros. Logo após o julgamento, a pena foi revista e subiu para um mínimo de dez anos. Eles não sairiam da cadeia antes dos vinte anos de idade.
Robert Thompson


 O tabloide ‘The Sun’ deu início então a uma campanha. Recolheu duzentas e oitenta mil assinaturas e pressionou o ‘home secretary’, uma espécie de ministro para assuntos internos, a aumentar o tempo de custódia. Em 1994, a pena subiu para um mínimo de quinze anos. A interferência do governo, impulsionada pela opinião pública, foi duramente criticada e, em 1997, a pena foi reduzida. A Casa dos Lordes (o senado daqui) determinou que o executivo não poderia interferir com a Justiça. O então primeiro-ministro, o Conservador John Major, afirmou: “a sociedade precisa condenar um pouco mais e compreender um pouco menos”. Ele certamente estava afinado com o ‘humor’ geral da nação, sedento de sangue e inflamado pela mídia. Mas o primeiro-ministro estava certo?


No Livro ‘Why Love Matters (2004), (não encontrei uma versão em português), a autora Sue Gerhardt vai buscar na neurociência algumas respostas para comportamentos como o dos assassinos confessos de James Bulger. A ideia central do livro é que o amor ajuda a construir as conexões cerebrais, que tornam possível que uma pessoa se relacione bem com outro ser humano. Ela cita o caso clássico dos órfãos da Romênia, que foram negligenciados, abusados e totalmente privados de contato humano e amor, enquanto cresciam em orfanatos públicos e miseráveis. Bebês, que eram confinados em berços, sem higiene, sem carinho e atenção. As dificuldades, enfrentadas nos primeiros anos de vida destes órfãos, não deixaram apenas sequelas psicológicas. Exames de tomografia revelaram que no cérebro dessas crianças existia um buraco negro, no que deveria ser a parte responsável por controlar as emoções. Elas também apresentavam vários problemas de aprendizado, atrasos cognitivos e de linguagem. Em outras palavras, a falta total de amor impediu o desenvolvimento cerebral.

Orfanato romeno


O caso dos órfãos é extremo e ilustra bem como o cérebro se desenvolve nos primeiros anos de vida. Mas a autora foi mais longe e investigou também o passado dos meninos assassinos de Merseyside. Não chega a surpreender que ambos venham de famílias totalmente desestruturadas. A mãe de um era alcoólatra, a do outro sofria de depressão profunda. Ambas eram separadas dos pais das crianças e batiam muito nos filhos. Os pais não eram melhores. Os meninos foram expostos à pornografia a partir dos três anos de idade e começaram a fumar maconha aos seis. Os dois viviam numa situação onde os níveis de estresse eram constantemente altíssimos, o que segundo a autora, resulta num desenvolvimento cerebral comprometido.






O ‘Why love matters’ acabaria influenciando algumas políticas de ação social neste país. Mas o ponto é que nem todo mundo que é exposto a essas condições sai por aí torturando e matando criancinhas. Felizmente este é o comportamento raro. Por outro lado, nem todo assassino teve um começo de vida difícil.


Este parece ser o caso de Will Cornick. Aos quinze anos, ele esfaqueou e matou cruelmente a professora Ann Maguire na sala de aula, na frente dos colegas. O motivo? Não gostava dela. Segundo consta, os pais de Will adoravam o filho e viviam em função dele. Ele era um estudante brilhante. Dois anos antes de cometer o crime, teve um desmaio numa excursão da escola, foi diagnosticado com diabetes e começou a apresentar mudanças de comportamento, que incluíam automutilação. Ele teria sofrido uma decepção grande ao ser rejeitado para o serviço militar e, no natal de 2013, mandou uma mensagem pelo Facebook a um amigo, dizendo que ia matar a professora. Ele teria dito também que pretendia matar outras duas professoras, uma delas grávida. Na época, se falou muito que, se fosse nos Estados Unidos, onde a venda de armas é liberada, ele provavelmente teria feito um estrago muito maior. Aqui não é fácil conseguir arma de fogo.


A professora Ann Maguire



O crime aconteceu em abril de 2014. Ele foi condenado à prisão perpétua. Em sua sentença, o juiz disse que Will Cornick era um risco para a sociedade. Cornick também foi julgado numa Corte para adultos, que decidiu que o réu sabia o que estava fazendo no momento do crime. O caso dividiu opiniões, como era de se esperar. Uma colunista do The Guardian (com uma linha mais de esquerda) criticou a sentença. Disse que o cérebro do adolescente, devido a sua pouca idade, não estava completamente amadurecido e questionou a sanidade mental do rapaz. Já a colunista do tabloide The Sun escreveu: “agora ele vai cumprir a sentença, onde estará sendo monitorado, para que não cometa suicídio. Pessoalmente, eu lhe ofereceria uma corda e privacidade”.



William Cornick


O Reino Unido é um dos países que tem as leis mais duras com relação à maioridade penal. Opiniões tão diversas como as das duas colunistas acima não deixam dúvidas: este é um terreno difícil de trilhar. Parece claro que muita gente insiste em enxergar o assunto pelos extremos. Um lado transformando o criminoso em vítima e o outro em diabo encarnado. Pode um infrator ser ao mesmo tempo vítima e agressor? Afinal, qual é o objetivo de uma sentença? Punição? Vingança? Oferecer a oportunidade de reabilitação do criminoso? Mandar a mensagem de que o crime não compensa? Já vi muitos comentários defendendo que crianças como Venables e Thompson devem mesmo ser emprisionadas, para servirem de exemplo. Será que quem comete crimes tão bárbaros como o assassinato de James Bulger realmente pensa nas consequências?  

De volta ao século passado, enquanto o primeiro-ministro John Major exibia seu lado linha dura, seu oponente e sucessor Tony Blair fazia outras apostas. Em um famoso discurso inflamado, ele falou sobre a repercussão do assassinato de James Bulger: “Ouvimos falar de crimes tão horríveis que provocam raiva e descrença em proporções iguais ... Estas são as manifestações feias de uma sociedade que está tornando-se indigna desse nome”.

 Já passou foi água debaixo dessa ponte. Dezoito anos mais tarde, a maioridade penal neste país continua sendo dez anos. Mas neste meio tempo, tanto os governos dos trabalhistas (Blair e Brown) quanto o de David Cameron vem trabalhando duro para diminuir a criminalidade de crianças e adolescentes. As medidas têm caráter preventivo. Vão desde investimentos em educação, não só nas escolas como também nas prisões, até um sistema de triagem mais eficiente nas delegacias de polícia. Muitos infratores não chegam a ser condenados. Recebem advertências , medidas socioeducativas e são monitorados.

O governo reconhece que um problema sério entre jovens nesta ilha são as gangues. Principalmente nas regiões mais pobres, elas fazem parte da cultura local. Em geral, a criminalidade tem caído por aqui, com exceção das brigas de gangues, nas quais adolescentes são esfaqueados. Existem várias estratégias em vigor para tentar reverter essa situação. Uma delas é um programa de computação que ‘prevê’ possíveis conflitos, com base em informações coletadas através de mídias sociais. Outra linha de ação envolve ainda mais a comunidade. Pessoas, que no passado faziam parte de gangues, são contratadas para dar palestras em escolas e ajudar a polícia a entender como os bandos recrutam novos membros.

Nem o judiciário, nem o serviço social e tampouco o sistema prisional desta ilha são perfeitos. Longe disso. Entretanto, estatísticas do governo revelam que, em 2006, havia 100 mil crianças e adolescentes (entre 10 e 17 anos) nas prisões daqui. Este número caiu dramaticamente. Em 2013, eram 27.854 presos na mesma faixa etária. Resultado de uma política de prevenção de criminalidade. Ao que tudo indica, menos condenação e mais compreensão tem dado resultados.




quinta-feira, 12 de março de 2015

Pamonhices

 



"Pamonhas, pamonhas, pamonhas

Pamonhas de Piracicaba[]

É o puro creme do milho verde

Venham experimentar estas delícias...” 


 


Quase toda semana a mensagem acima, gravada na década de 70, era repetida exaustivamente pelo alto-falante de um carro que cruzava minha rua em São Paulo, no fim do século passado. Junto com um cachorro que latia muito, uma mulher que falava berrando e o portão enferrujado da garagem do prédio ao lado, as pamonhas de Piracicaba faziam parte dos barulhos urbanos, que escalavam os andares e chegavam intrometidos pela janela. Era só mais um ruído que não merecia minha atenção. A minha não, mas assutou meu marido, em sua primeria visita ao Brasil. Ele não sabia uma palavra sequer em português. Na Inglaterra não tem carro com alto-falante gritando mensagens. Os ingleses são neuróticos com barulho. Tolerância zero. Aliás, até os cachorros aqui são treinados para não latir.


 
Gringo e desconfiado por natureza, ele achou que fosse alguém convocando a massa para uma manifestação popular. Talvez um novo golpe de Estado. Ele enxergava o Brasil pela primeira vez com olhos e ouvidos de estrangeiro. Afinal, todo mundo sabe que na América Latina ditadores se apropriam do poder a toda hora...
 
Anos depois, já morando na Inglaterra, vivi um dos meus milhares  momentos de gringa. O Parlamento Britânico havia sido fechado. Deu no noticiário. Até tu, Brutus?  A pamonha aqui largou o que estava fazendo para ficar colada em frente à tevê. Depois morri de vergonha. Além de gostar de privacidade, os ingleses adoram tradição. A ‘abertura’ do Parlamento é apenas mais um ritual do calendário britânico.
 
 

 


 

 

 


Dona Rainha Elizabeth, com sua coroa cintilante, sai de seu palácio real a bordo de uma relíquia sobre rodas, puxada pelos cavalos mais majestosos e lustrosos de todo o reino. Ela segue escoltada pela cavalaria, acenando (raramente) para os súditos e turistas pelas avenidas da capital, até chegar a Westminster. A ‘abertura do Estado’ acontece não só no começo do ano parlamentar, mas também logo depois que um novo primeiro-ministro assume o cargo. É a única ocasião em que os três poderes constitucionais (soberano + casa dos lordes + casa dos comuns) se reúnem. Para quem está se perguntando onde fica o primeiro-ministro nesta festa, uma explicação: ele é, antes de tudo, um parlamentar, portanto, também está na lista de convidados.


                    

A Rainha chega ao Parlamento e entra pela porta dos soberanos, sim existe isso. Depois ela é levada à ‘sala dos robes’ (também não estou inventando), onde veste um manto real. De lá, caminha até a Galeria Real (tá ficando repetitivo), onde seiscentos convidados a esperam. Então, o ‘Black Rod’, que é um funcionário sênior da Casa dos Lordes (uma espécie de senado) é enviado para convocar os parlamentares da ‘Casa dos Comuns’ (o equivalente à Câmara Federal). Chegando lá, os parlamentares batem a porta na cara do emissário. Uma prática, aparentemente malcriada, que existe desde a Guerra Civil (século XVII), simbolizando a independência da Casa dos Comuns da Monarquia. O ‘Black Rod’ usa um cetro para bater na porta três vezes. Se olhar bem, dá para ver o estrago que essa tradição fez na madeira da porta ao longo dos anos.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Os ‘Comuns’ acompanham o ‘Black Rod’ até a ‘Câmara dos Lordes’ e, de pé, escutam o discurso da Rainha. Ela confortavelmente (vai ver que não) assentada em seu trono real.
 
 
 
 
 
 
 

 


O texto, escrito pelo governo, contém as propostas políticas para o legislativo no ano que se inicia. É uma cerimônia lindíssima, rica em simbolismos, pompa e circunstância. Um ritual afinado com o passar dos anos.


 

 
 




Quase caí pra trás quando vi pela primeira vez uma sessão do Parlamento Britânico. Um parlamentar fala e é aplaudido pelos colegas, que mexem a cabeça em sinal de aprovação. Enquanto isso, do outro lado da mesa, a oposição VAIA! Isso mesmo, eles soltam umas risadas forçadas, de quem quer ridicularizar o oponente e vaiam. Cá prá nós, é meio ridículo. Parece uma pantomima, mas faz parte do show deles. Qualquer um pode visitar o Parlamento, mas assisti à cena no canal que transmite as sessões, como numa TV Senado. Fiquei esperando o momento em que eles iriam sair no tapa. Mas não tem agressão física e nem outras baixarias pessoais. O que custei um pouco a perceber, é que havia sim conflito, mas de ideias, de posições políticas. O ‘telequete’ tem suas regras. As mães alheias ficam de fora e não se ameaça a integrigade física de ninguém. Egos podem sair feridos, mas não tem olho roxo.

 

Os ingleses aprendem cedo a participar da vida pública. O dia nas escolas começa com uma assembléia. As crianças se reunem num salão ou no auditório da escola. Nestes encontros, muitas vezes um aluno é convidado a falar para a escola inteira. Pode ser para mostrar uma medalha que ganhou no futebol, ou simplesmente porque tem um recado a dar. Adoro o modo como as crianças desta ilha se expressam. Elas são articuladas, são ensinadas desde pequenas a defender um ponto de vista e a argumentar. Faz parte da tradição de debate e de expressão desta cultura.

 

O exemplo mais batido deste caso de amor com a liberdade de expressão é o ‘Speakers' Corner’ , a esquina da oratória no Hyde Park, bem no centro de Londres. Ainda hoje em tempos internéticos, o sujeito, ou a sujeita, que acha que tem uma mensagem que vale ser compartilhada com o mundo, pega sua escadinha, sobe nos degraus e solta o verbo. Religião e política são os temas mais populares, como era de se esperar. O interessante é que o lugar escolhido foi um dia o palco de execuções públicas por enforcamento.

 

Tem gente que acredita que se pode falar o que quiser no Hyde Park. O ‘Speakers’ Corner’ seria uma espécie de ‘pique’, aquele canto que no pega-pega de criança oferece uma imunidade temporária. Mas não é bem assim. O teor do discurso não pode ser ilegal, incitar ao ódio ou à violência e, se ofender alguém diretamente, o orador é passível de processo de difamação, como em qualquer outro lugar. A tradição começou no século XIX, depois de uma revolta popular contra a proibição da abertura do comércio aos domingos, o único dia em que os trabalhadores podiam ir às compras. O resultado dos protestos foi que os cidadãos ganharam o direito de se pronunciarem no Hyde Park. Desde então é o lugar para o debate público, discursos, protestos e manifestações. Por lá passaram Karl Marx, Vladimir Lenin e o grande irmão George Orwell. Qualquer um pode usar o espaço para se expressar.

 



 




Já faz uns anos, mas me lembro de ler todas as manhãs na sessão carta do leitor do Metro News, uma discussão sobre quem eram os melhores trabalhadores, os Oompa Loompa, da Fantástica Fábrica de Chocolate ou os irritantes Munchkins, do Mágico de Oz. Esse debate e outros, como quem levaria a melhor numa briga entre o Capitão América e o Super Homem, durou semanas. Era ridículo, mas os argumentos eram engraçadíssimos e bem escritos. Bem mais interessantes do que o mais recente casamento de Katie Price (quem?) ou a cara amarrada de Victoria Beckham.
 



 

 

 

 



 

 

 


Logo que vim morar na Inglaterra, fiz um curso de inglês. A escola organizava eventos e excursões. A explicação oficial era que essas atividades ofereceriam ao aluno uma oportunidade de imersão na cultura local. Seja como for, eram uma baita isca para quem não estava assim tão interessado numa sala de aula.


 

 
 Cheguei a ir a um ‘pub quiz’, que é quase uma instituição britânica. Cada mesa organiza seu time. Todo mundo paga um pouco para tomar parte no jogo. O dono do bar lê as perguntas, como num jogo de Máster. A mesa vencedora recebe o bolão e gasta tudo em cerveja. Da última vez em que fui a um destes eventos, o organizador ameaçou confiscar os celulares dos participantes, antes do jogo começar. Todo mundo se fingiu de morto; ele percebeu que perderia fregueses e se deu por vencido. O ‘pub quiz’ virou um campeonato do dedo mais rápido do oeste, de quem conseguia achar a resposta no google em menos tempo e sem dar muita bandeira.
 
Mas voltando ao tempo de estudante. Fui com meus colegas a um pub participar do ‘jogo do balão de ar quente’. Funciona assim: você pode escolher quem quer ser, qualquer personagem que quiser incorporar –  tem sempre um que apela e escolhe ser um cientista, que está prestes a desvendar a cura definitiva para o câncer.
 
O balão está pesado e com problemas. Um dos passageiros vai ter que ser sacrificado, senão todos vão morrer. Cada participante tem um tempo para fazer seu discurso e defender a própria pele. “Eu mereço viver porque...” Se os argumentos não colarem, tchauzinho. Achei a brincadeira espetacular mas fiquei passada em pensar como é que alguém sai de casa para beber e, voluntariamente, toma parte num jogo destes. O cientista salvador da pátria foi o primeiro a se espatifar no chão. Não sabia juntar sujeito com predicado. Coitado. Um a um os competidores foram saindo do jogo. Se me lembro bem, ganhou o espertinho, que prometeu pagar uma rodada para a turma. Ah, o apelo irresistível de Baco...
 
Ser imigrante nem sempre é um passeio no parque. Quando a gente se depara com as diferenças e com aquilo que não compreendemos, dá uma saudade enorme de casa. Nosso país de origem passa a ser o melhor e mais desejado lugar do mundo. Mesmo quando não é bom, melhor escolher um diabo conhecido do que um estranho. Tem a fase das comparações e a do deslumbramento. Tudo ao mesmo tempo, sem muita ordem. Apesar da confusão interna, viver no exterior é também uma oportunidade enorme de aprendizado e um exercício de adaptação.
 
 
Não sei o que tem lá na frente e não acredito mais em bolas de cristal. Gosto de pensar que, se algum dia for morar em outro país, levarei comigo o amor dos ingleses pelo debate, sem medo do confronto de ideias e sem sair chutando o pau da barraca. Irá na minha bagagem também a memória dos sons, que entravam sem convite pela minha janela, num país muito mais ensolarado.