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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Dilema de Heinz




A esposa de Heinz está morrendo de câncer. Mas nem tudo está perdido: um farmacêutico da cidade descobriu uma droga que potencialmente pode salvar a vida da mulher. Só que tem uma pegadinha: o farmacêutico é ganancioso. Ele gasta 200 dinheiros para fabricar a droga e a vende por 2000 dinheiros. Heinz não tem essa grana toda. Ele passa o chapéu e consegue recolher mil dinheiros de amigos e familiares. Então vai conversar com o farmacêutico. Diz que só conseguiu juntar mil e implora para que o homem venda o remédio mais barato. Promete que vai pagando a diferença depois. O farmacêutico insensível diz que não. Heinz entra em desespero. Quando a noite cai, ele quebra a vidraça da farmácia e rouba o medicamento. 

Essa história é um clássico nas aulas de ética e moral. Foi usada pelo psicólogo americano Lawrence Kohlberg para explicar sua teoria dos estágios do desenvolvimento moral da criança. Ele propõe uma série de questionamentos. O que importa não é o que você faria se estivesse no lugar de Heinz e sim a decisão dele de roubar a droga.

Estágio 1 – Obediência

Heinz não deveria ter roubado, porque ele vai para prisão. Ele é uma pessoa má.

Ou: Ele deveria ter roubado o remédio, porque a droga só custa 200 dinheiros ao farmacêutico. Além do mais, Heinz ofereceu para pagar em prestações e ele não roubou nada além do medicamento.

Estágio 2 – Interesse Próprio 

Heinz roubou, porque isso o deixará feliz: tentou salvar a esposa; mesmo que tenha que ir para a prisão.

Ou: Ele não deveria ter roubado a droga, porque cadeia é um lugar horroroso. Melhor lidar com a morte da mulher do que apodrecer na prisão.

Estágio 3 – Conformidade

Heinz tinha mesmo que roubar o medicamento, porque a mulher dele esperava que ele fosse um bom marido.

Ou: Ele não deveria roubar, porque roubar é crime e ele não é um criminoso; o marido tentou tudo que podia sem burlar a lei, a esposa não pode culpá-lo de nada.

Estágio 4 – Lei acima de tudo

Heinz errou ao roubar, porque a lei proibe roubar. Ele cometeu um ato ilegal.

Ou: Ele deveria roubar o medicamento para sua esposa e arcar com as consequências: prisão e reembolso ao farmacêutico. Não dá para sair por aí cometendo crimes e não ser punido.

Estágio 5 – Direitos Humanos

Heinz estava certo ao roubar a droga, porque todo mundo tem o direito de escolher a vida, independente do que diz a lei.

Ou: Ele errou porque o farmacêutico que descobriu o remédio merece ser recompensado por sua descoberta (leia-se receber o pagamento que acha justo), mesmo que isso custe a vida da esposa de Heinz.

Estágio 6 – Ética humana universal

Heinz deveria roubar o medicamento, porque salvar uma vida humana é mais precioso do que o direito à propriedade (seja física ou intelectual) de outra pessoa.

Ou: Ele errou porque outras pessoas talvez precisem também da droga que ele roubou e todas a vidas são igualmente importantes.




Pensei no dilema de Heinz assim que ouvi a história de Rob Lawrie. Ele é um britânico que, como muitos outros, foi ajudar os refugiados na Selva - um grande acampamento na França, em Calais, onde milhares de pessoas passam os dias na esperança de cruzar o Canal da Mancha e recomeçar a vida aqui na Ilha. Rob foi julgado hoje na França como traficante de seres humanos.

Rob já foi soldado, trabalhou limpando carpetes. É bipolar e sofre da Síndrome de Tourette. Foi na Selva que ele conheceu um refugiado afegão e sua filha Bru, de quatro anos. Eles se tornaram amigos. O ex-fazendeiro afegão implorou a Rob que ele levasse sua filha escondida no carro dele até a tia da menina, que vive na cidade de Leeds, na Inglaterra. Rob topou. O plano foi por água abaixo quando dois cães farejadores descobriram dois homens da Eritréia, que estavam escondidos na van de Rob, sem que ele soubesse. Pelo menos essa é a versão dele.
Rob e Bru

  

Como julgar o dilema de Rob Lawrie? Ele burlou a lei. Tentou entrar no Reino Unido trazendo uma criança ilegalmente. Ele estava certo ao tentar ajudar a menina e seu pai? Foi um bom samaritano ou um criminoso? Você decide. 

Se nem com as cinco etapas do desenvolvimento moral você conseguiu chegar a uma conclusão, fique sabendo que a corte francesa pegou leve. Talvez tenha ajudado que imprensa mundial estava de olho no caso. Rob Lawrie se livrou da cadeia. Pagou uma multa de mil euros. Ele não respondeu pelo crime de tráfico humano e sim por ter transportado a criança de uma maneira que poderia colocar a vida dela em risco, ou seja, a menina viajava sem o assento apropriado e sem cinto de segurança.

A tentativa frustrada de trazer a menina para a Inglaterra aconteceu em outubro do ano passado. Rob Lawrie confessou que seu plano foi estúpido. Agiu com o coração e sem pensar, mas ele se disse satisfeito por ter jogado uma luz no drama das crianças refugiadas. Ele foi para Calais tentar ajudar os refugiados, depois de ver a foto do menininho morto numa praia da Turquia.  

Rob vai poder voltar para casa. Bru e o pai estão amargando um inverno gelado na favelona de Calais.
A 'Selva' de Calais

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Testemunha Ocular

 
Belo Horizonte, anos 80


Eu estava no carro com a minha mãe numa movimentada avenida de Belo Horizonte. Ela ia ao volante. O sinal tinha acabado de abrir. De repente, alguma coisa caiu do carro que seguia à nossa frente. Minha mãe, muito mais experiente, viu de cara que não era um pacote e sim um corpo. Parou o carro no acostamento. Do outro lado da pista junto ao canteiro central, um motorista jovem parecia desesperado do lado de fora do carro, com as mãos na cabeça.  

Estatelada no asfalto, uma velha. O corpo estava desconjuntado de uma forma impossível e macabramente ridícula. Origami de ossos. Seus seios murchos se derretiam no chão, junto com todas as rugas. Havia uma poça espessa como esmalte vermelho berrante. O sangue tinha desistido de escorrer. Parecia impensável que, apenas alguns segundos atrás, tivesse existido vida no que então era uma carcaça tão morta, absurdamente imóvel..


O motorista veio falar com a minha mãe. Estava fora de si e pediu que ela o levasse até a casa dele, que ficava ali perto, para buscar seus pais. Sei lá porque, ele entrou no banco de passageiro e eu saí. Um detalhe importante deste atropelamento é que ele aconteceu em frente a uma favela enorme. Um tsunami de piranhas humanas desceu o morro e depenou o carro do atropelador com uma fome ancestral. Do carro só sobrou a carcaça. 

O tempo esquentou. Uma mulher muito nervosa gritava que tinha visto o motorista entrar no prédio que, dia sim e dia também, encarava a favela num deboche de quem estava alguns degraus acima na escala social. Alguém cobriu o corpo da velhinha com jornais. Um fotógrafo materializado do além  disparava sua câmera sem cerimônia. O porteiro do prédio abandonou sua guarita. A polícia chegou e começou a distribuir golpes de cassetete como quem bate um bife para ele ficar mais macio. Notei que minha mãe estava de volta com o rapaz. Depois de prestarmos depoimento, seguimos viagem abastecidas de adrenalina e tristeza.

Os acontecimentos daquela manhã foram de uma violência que eu nunca tinha vivenciado. Uma coisa que me impressionou muito foram as versões que as “testemunhas” compartilhavam, sem que ninguém tivesse perguntado. Diziam que o motorista estava escondido no prédio. Que ele havia acelerado o carro quando viu a velhinha. Que teria desviado para acertar a velha de propósito, como se gostasse de jogar boliche humano.



 
 

22 de julho de 2005
 

Londres ainda estava inquieta por causa dos ataques terroristas do dia sete de julho. Quatro homens-bomba haviam matado 52 pessoas e ferido mais de 700. Os nervos estavam à flor da pele. Na tevê, surgiam as primeiras notícias de que a Polícia Metropolitana da Capital havia matado um suspeito dentro de um vagão de trem na estação de Stockwell. Como dois e dois são quatro, a conclusão lógica era que os policias tinham evitado mais um atentado. Me lembro claramente das primeiras versões: “ A vítima teria pulado as catracas, tentando escapar da perseguição policial”. Mais de uma testemunha descreveu o morto como “um tipo mulçumano”.  

Logo outra história começou a se desenhar. De fato, o ‘elemento abatido’ não era um caucasiano alto, loiro e de olhos azuis. Entretanto, não se tratava tampouco de um terrorista, muito menos islâmico. Hoje todo mundo sabe que era o brasileiro Jean Charles de Menezes, que foi confundido com um suspeito.  
 
 
Jean Charles de Menezes
 

Mais uma vez, os preconceitos das testemunhas e da própria polícia ‘embaçaram’ seus julgamentos. Eles viram o que quiseram ver. 
 

31 de dezembro de 2015 – Colônia na Alemanha
 

Gangues assaltam e molestam mulheres alemãs na festa de comemoração do ano novo, próximo à estação de trem da cidade. A polícia recebeu mais de 90 queixas-crime. A correspondente da BBC na Alemanha diz em seu texto que: “pelo menos uma mulher foi estuprada”. Como assim pelo menos uma? Que notícia é essa?  As vítimas afirmam que os agressores eram "árabes ou do Norte da África". 
 
 A notícia do arrastão com retoques de crime sexual tem repercutido massivamente aqui na Ilha. Primeiro, pela natureza e tamanho dos ataques, que aparentemente são incomuns por lá. Mas tem chamado atenção a declaração da prefeita da cidade de Colônia, que sugeriu que as mulheres andassem acompanhadas de homens em grandes eventos públicos como o do réveillon.  

Dá vontade de gritar cada vez que vejo alguém comentar que uma mulher mereceu ser abusada/estuprada, porque ‘deu mole’, se vestiu de maneira inapropriada e por aí vai. O culpado é o agressor e não a vítima e não tem o que discutir. 


Testemunha Ocular

Estima-se que um milhão de refugiados tenha entrado na Alemanha, só no ano passado. A população do país é de 82.652 milhões de pessoas. Quando eu estava grávida, participei de um grupo de pré-natal. Um dos casais dizia categoricamente que a chegada do filho não iria mudar a vida deles. A criança teria que se adaptar à rotina dos pais. Gostaria de me encontrar com eles hoje em dia e perguntar como vai o plano deles. Não dá para receber tanta gente em seu país, pessoas vindas de culturas diversas e esperar que a vida não vá mudar. A prefeita de Colônia tem sido muito criticada por sua declaração. Do jeito que enxergo o comentário, ela está sendo pragmática. Levanta a mão quem acha que é sensato (usei a palavra sensato e não justo ou correto) passear por áreas de alta criminalidade usando relógio caro e joias chamativas? 

Ah, mas isso não está certo. Quem chega tem que respeitar as regras do lugar, certo? Certíssimo. Justíssimo. Mas o buraco é mais embaixo. Quem é que vive num mundo ideal? Me apresente esse lugar, porque ainda não conheci. Então, o negócio é fechar as portas e não deixar mais ‘essa gente’ entrar!  Será? 
 

Angela Merkel



A chanceler alemã Angela Merkel não abriu as fronteiras de seu país aos refugiados porque é boazinha. O país precisa dos imigrantes, como aliás o Reino Unido também http://mariaeduardajohnston.blogspot.co.uk/2015/09/precisamos-falar-sobre-imigracao.html . Mas não é só a questão econômica. A situação dos refugiados, sírios, afegãos e africanos é desesperadora. Não dá para virar as costas e ignorar o drama dessas pessoas. http://mariaeduardajohnston.blogspot.co.uk/2015/09/questao-moral.html É fácil? Claro que não é. Para ninguém. Mas não tem volta. Não dá para declarar que a política de imigração foi um fracasso, quando os primeiros problemas aparecem. 


Pelo que acompanho das notícias na Alemanha, a questão da imigração é muito polarizada. Há aqueles que apostam no fracasso do programa. As 90 vítimas dos ataques no ano novo estão enganadas quando dizem que os agressores eram estrangeiros? Pode ser que quem está jogando contra esteja por trás dos ataques? Ou será que bandidinhos se valeram da atual tensão no país para assaltar as mulheres? Quem sabe as testemunhas estão certas? Foram mesmo os refugiados mulçumanos "que não respeitam as mulheres". Não sei. Ninguém sabe. Por isso, é tão importante que os fatos sejam apurados corretamente e que os culpados respondam por seus crimes. O que sei é cada um de nós é testemunha do que promete ser um dos maiores desafios deste ano nesta parte do globo: a integração de culturas.


Cada um vai ter uma versão para contar.

sábado, 26 de setembro de 2015

Precisamos falar sobre imigração

  

 

Está chovendo na horta dos professores aqui da Ilha. O que não falta é emprego. Normalmente no fim de julho e durante o mês de agosto, as escolas aproveitam que as crianças estão de férias e realizam pequenas reformas em suas instalações. Mas é só prestar atenção para descobrir que as obras estão ocorrendo não só nas férias de verão. Quase toda escola tem um ‘puxadinho’ para acomodar mais alunos. Vejo muitos pais reclamarem que as áreas verdes das instituições de ensino estão cada vez menores.

 


Essa demanda por mais vagas se explica em parte pelo aumento populacional, num curto espaço de tempo. A taxa de natalidade na Inglaterra e País de Gales subiu 18% na última década. De acordo com o ONS (Office for National Statistics) - o IBGE deles, mais de uma em cada quatro crianças nascidas nesses dois países é filha de estrangeira. O aumento no número de nascimentos se deve às melhorias no tratamento de infertilidade (as mulheres estão tendo o primeiro filho cada vez mais tarde), mas também ao fato de que a segunda geração de mulheres não nascidas neste país terem mais filhos. A taxa de natalidade por aqui é de 1.85 filhos por mulher. Entre as imigrantes da Líbia, o número é bem maior: 5.58 filhos. As polonesas são imigrantes que têm mais filhos.


 
 
Falar em escolas superlotadas e menos grama para as crianças correrem soa como draminha de classe média. Na escala da tragédia humana escancarada nas fronteiras europeias, não devia nem contar. Quando a gente vê o desespero de milhares de pessoas tentando chegar à Europa, criancinhas mortas na praia, cercas de arame farpado brotando do chão mais rápido do que erva daninha, o debate sobre imigração fica pequeno demais, certo?
 
Sim e não. Apesar de não existir um consenso que defina qual seria o número ideal de imigrantes nesta Ilha, não dá para negar que a metade dos habitantes locais acredita que existam imigrantes demais neste país. De acordo com o Migration Observatory da Universidade de Oxford, embora as pessoas por aqui sintam que já deu, os números mostram que a proporção de imigrantes na população desta Ilha é comparável com os de quinze outros países membros da Comunidade Europeia. Em termos de número de imigrantes, o Reino Unido está mais ou menos par e passo com a Alemanha. Seis países, entre eles Áustria, Irlanda e Suécia, têm ainda mais imigrantes, enquanto Itália, Portugal e Finlândia têm proporcionalmente menos.
 
 

 

Mocinhos & Bandidos

 

Imigração aqui é um daqueles assuntos Fla-Flu, que fazem o tom de voz subir e o nível cair. É duro ter um debate honesto sobre o tema, porque ele é extremamente politizado. As pessoas tendem a se concentrar nos argumentos que sustentam seus pontos de vista, sem considerar que existem bônus e ônus na equação.
 

Mais ou menos um ano atrás, Alice Gross, uma adolescente de Londres, desapareceu quando saiu para dar uma volta. Dias depois seu corpo foi encontrado. O assassino era um imigrante da Letônia, que havia sido condenado em seu próprio país por ter esfaqueado a esposa. O crime horrendo saiu como pólvora da boca dos que querem proteger seu precioso modo de vida do perigo que vem de fora. A família de Alice tem toda a minha solidariedade. E, embora eu acredite que o sistema de imigração, pelo menos num mundo ideal, pudesse ser melhor se evitasse que criminosos se mudassem para este país, usar o assassinato como argumento para ser contra a entrada de estrangeiros é de uma miopia que beira a cegueira. No entanto, muitos jornais e políticos vivem de vender histórias e versões, que reforçam esta linha de pensamento.
 
 
 
 
 
 
 
O número de imigrantes varia absurdamente nas diversas regiões do país. Londres ocupa a liderança, onde 36,2 em cada cem habitantes são imigrantes (dados de 2013). Na lanterninha está o Nordeste do Reino Unido com 1,8%. Outro dia ouvi uma senhora de idade dizer que está cada dia mais difícil fazer compras. As atendentes falam um inglês que ela não reconhece. Volta e meia vem alguém (nativos e estrangeiros) reclamar comigo dos imigrantes. Santa ironia. Mas, voltando à velhinha. Ela se queixou de que a Inglaterra que ela conhecia não existe mais. Talvez seja parte do processo de envelhecer, se ficamos agarrados ao passado, o presente parece mesmo uma terra estrangeira, onde não há muito o que se reconhece como familiar. Mas há mais do que nostalgia no comentário que ouvi e quem mora em Londres sabe disso.
 
 
 

 A imigração e o  bolso

 
 
Um dos jeitos de pensar sobre imigração é avaliar seu impacto na economia. Em média, nos últimos cinco anos, chegaram trezentos mil novos imigrantes a cada ano (a população da Grã-Bretanha está beirando os 65 milhões, com pouco mais de oito milhões de estrangeiros). Com o aumento da população, cresce a demanda por infraestrutura:  serviços sociais, escolas, hospitais, habitação e transporte. Em algumas regiões a pressão é maior. As administrações regionais estão tendo que rebolar para manter os serviços (ainda mais com o governo mandando cortar custos sem dó nem piedade). Entretanto, o curioso é observar que, contrariando a premissa de  que a imigração está estrangulando este país, a economia tem crescido. Uma marretada naqueles que afirmam que os imigrantes só querem vir para cá para mamar nas tetas do governo.
 

Do ponto de vista da economia, existem imigrantes e imigrantes. O que quer dizer que alguns têm qualificações profissionais que interessam muito a este país. Segundo o diretor executivo da multinacional Siemens, Juergen Maier, esta Ilha vai precisar de um milhão e oitocentos mil engenheiros nos próximos dez anos. Um número que este país não vai conseguir produzir. Para ele, os imigrantes são fundamentais para manter o crescimento econômico do Reino Unido. Ele acrescenta que durante anos este país ignorou a questão do aumento da população e não fez seu dever de casa. Quando a gente vê as escolas correndo para arrumar mais salas de aula, o que ele diz faz sentido. O desafio é saber planejar e ter uma estratégia que integre os novos e antigos moradores desta Ilha.
 
Mas nem entre os empresários o tema é consenso. Alguns enxergam a questão de uma forma diferente. Se este país está sempre olhando para fora para atender à demanda imediata de profissionais qualificados, ele acaba negligenciando a formação e o investimento em outros MADE IN UK, feitos em casa. É preciso investir mais na prata da casa, eles afirmam.
 
 

 A imigração e o trabalho

 
 
Do outro lado da moeda estão os profissionais com poucas qualificações, os carrega-piano mesmo. Pessoas que topam empregos sazonais na agricultura por exemplo. Estes com certeza devem estar tirando o emprego dos locais...
 

Não é o que pensam muitos fazendeiros, que dependem da mão-de-obra estrangeira. Eles argumentam que os britânicos mais dispostos ao trabalho não querem saber deste tipo de ocupação temporária e os que estão desempregados preferem continuar recebendo ajuda do governo a fazer trabalho braçal pesado.
 
Mas também quem vai querer trabalhar por tão pouco dinheiro? Os imigrantes aceitam qualquer coisa e o salário é cada vez mais baixo. Este é um dos argumentos que mais se repete na mídia. Entretanto, embora seja essa a percepção de muita gente, nenhum estudo até hoje conseguiu provar que exista um achatamento real dos salários por causa da imigração. Na ponta do lápis, existem algumas variações, mas nada que justifique o estardalhaço. A lógica que prevalece é a mesma com ou sem imigrantes: quanto mais qualificado e essencial é o trabalhador, maior é seu poder de negociação salarial. O inverso também é verdadeiro
 
 
 
 
 
 
Outro dia ouvi um brasileiro dizer: você dá emprego para um polonês e leva Varsóvia inteira. Os argumentos contrários à imigração são repetidos pelos próprios imigrantes, como se algumas pessoas se sentissem menos imigrantes do que outras, na medida em que se adaptam ao novo país . Puxei papo com a garçonete que servia minha mesa numa pizzaria. Ela contou que era russa e que o restaurante onde ela trabalhava era como uma sede das Nações Unidas, tinha gente do mundo inteiro. Mas o trabalho antigo dela era muito ruim. Só dava eslovacos e assim como disse o brasileiro sobre os poloneses, eles falavam uma língua que só  eles entendiam e não deixavam mais ninguém entrar. Soa familiar?
 
 
 

 
 
 
 

Para melhor ou para pior?

 

 

Em sua campanha para reeleição, o primeiro-ministro David Cameron disse que o problema da imigração era insustentável e que os números teriam que ser reduzidos drasticamente. Até agora não cumpriu o que andou ameaçando, mas esse assunto vai ficar para outro post. O ponto é que os números e estatísticas são importantes, mas não retratam as nuances desta história. Se o país vai ficar mais rico ou mais pobre como consequência da imigração é um conceito difícil de assimilar no dia-a-dia. Muito mais fácil são os efeitos sociais e como as pessoas percebem a questão. A fila no hospital lotado é muito mais palpável e menos abstrata.
 
O movimento mais importante e mais difícil deste jogo em constante transformação chama-se integração. Como aceitar o outro sem anular o que o define como único? Como manter a cultura e os valores de um povo, respeitando os de tantos outros? Não é bolinho, não. Afinal, como Caetano Veloso disse muito bem: é que Narciso acha feio o que não é espelho. Os Narcisos nativos e os importados também.
 
 

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Questão Moral



Na estação Liverpool Street em Londres, uma estátua de bronze chama atenção. A cena retratada é doce: cinco crianças com expressões de deslumbramento nos rostos. Uma delas carrega um ursinho de pelúcia. Mas a história por trás da obra de arte é muito dura. Durante nove meses entre 1938 e 39, cerca de dez mil crianças judias foram mandadas sozinhas (sem os pais) para esta Ilha. Chegavam num trem apelidado de ‘Kindertransport’ (transporte de crianças). A maioria vinha de países como Alemanha, Áustria e Polônia. Elas seriam hospedadas em casas de famílias inglesas durante a Segunda Guerra Mundial. As crianças foram recebidas num clima de ambiguidade. O jornal Daily Mail (que continua conservador até hoje) denunciou, na ocasião, o que considerava um grande erro histórico. Afinal, segundo a publicação, este era um país cristão e o problema dos judeus não dizia respeito às pessoas da Grã-Bretanha.



Kindertransport Liverpool St Station




Esta postura “ema-ema-ema, cada um com seu problema” prevalece em grande parte da sociedade civil deste país e em tantos outros países europeus, no que diz respeito ao êxodo maciço de pessoas, principalmente da Síria, norte da África e Afeganistão.  A questão é que três em cada quatro eleitores britânicos acham que esse país já recebe estrangeiros demais. Semana passada saíram os números da imigração nesta Ilha. As estatísticas mostram que entrou mais gente do que saiu: a diferença entre os que deixaram o país e os que imigraram para cá é de 318 mil no último ano. Apenas dois mil a menos que em 2005, quando o Reino Unido abriu suas portas para oito novos membros da Comunidade Europeia. Só para colocar estes números em perspectiva: o Reino Unido (Inglaterra, País de Gales e Escócia) tem uma área em quilômetros quadrados que é menos do que a metade do estado de Minas Gerais.


O ponto é que a questão da imigração e a dos refugiados são percebidas pela maioria da população como a mesma coisa. O tema da imigração é vasto, dá muito pano para manga em vários posts. Para que este não fique longo demais, resolvi tentar me concentrar na questão dos refugiados. Os jornais usam as palavras ‘imigrantes’ e ‘refugiados’ como se as duas coisas fossem sinônimas, o que não são.




Em 1951, depois da Segunda Guerra Mundial, uma convenção criou o Estatuto dos Refugiados. O documento da ONU recebeu uma emenda em 1967, quando aumentou os direitos daqueles que procuram asilo em outros países. Cento e quarenta e oito países, incluindo o Brasil, são signatários dos dois documentos. Os Estados Unidos não concordaram com a reforma de 1967, para eles vale o que está escrito apenas na versão inicial.
 


Refugiado, ao contrário do imigrante, foge de seu país de origem para tentar escapar da guerra ou perseguições que colocam sua vida em risco (sejam elas religiosas, raciais ou políticas). O risco tem que ser comprovado. E, uma vez admitido, não pode ser mandado de volta para seu país.








O drama dos refugiados sírios, retratado pelo fotojornalista Valnei Nunes*




Os sírios teoricamente têm o status de refugiados, porque a guerra civil em seu país, que já dura quatro anos, matou pelo menos 300 mil pessoas. Desabrigou mais de 11 milhões de cidadãos. Quatro milhões deles já deixaram o país e têm uma existência de pobreza e falta de perspectiva de futuro em campos espalhados nos vizinhos, Líbano, Turquia e Jordânia.



Os números são alarmantes, na mesma proporção em que são desprovidos de alma. Como se a matemática tornasse banal o desespero e o medo de quem vive o horror da guerra. Estamos acostumando nossos olhares a ver aquelas pessoas como pobres vítimas da miséria, nos esquecendo de que um dia cada um deles teve uma vida de normalidade. Que saiam para o trabalho. Que suas crianças frequentavam escolas. E, que principalmente agora tudo é incerteza.





Campo de refugiados - Foto: Valnei Nunes


Há também os que se arriscam pelo Mediterrâneo, na esperança de reconstruírem suas vidas em solo europeu. A crise ficou mais evidenciada no início da primavera e no verão, quando o tempo menos inclemente favorece a travessia. Toda semana, assistimos na tevê histórias de naufrágios e pessoas se afogando em proporções bíblicas. Vimos equipes de resgates usando máscaras nos rostos para suportar o mau cheiro da pobreza e da degradação humana.


Ninguém é imune a estas imagens. Mas precisou de uma ainda mais forte para que líderes como o primeiro-ministro David Cameron recuassem em seus discursos linha dura: a foto do menininho sírio de três anos, que morreu afogado junto com sua mãe e irmão ao tentar chegar na Grécia. Até então, o governo britânico vinha dizendo que não iria receber sua cota dos refugiados que chegam aos milhares e se espalham pela Europa. Ontem virou o disco, disse que este país vai cumprir seu papel de responsabilidade na crise humanitária. Anunciou  hoje que vai receber milhares de refugiados sírios. Quantos, ainda não se sabe ao certo.


O discurso oficial que vem sido repetido exaustivamente nos últimos dias na mídia é que este país manda mais dinheiro do que todos os outros membros da Comunidade Europeia para manter os campos de refugiados sírios. Eles entendem que receber os cidadãos  expulsos pela guerra não resolve o problema. Não gostam da posição adotada pela chanceler alemã Angela Merkel de abrir as portas de seu país aos refugiados. Segundo o governo de David Cameron, isto só incentiva outros refugiados a optar pelo mesmo caminho e assim agravar a crise em solo europeu.




Refugiados na Turquia - Foto: Valnei Nunes




 Resolvi não usar neste post a imagem tão repetida nos últimos dias de Aylan Kurdi com o rostinho enfiado na areia da praia, ou a de seu corpo sendo carregado por um policial. As imagens têm poder, mas nesta era midiática, os reflexos duram apenas o tempo de um novo viral. Ouvindo o rádio hoje, fiquei comovida ao saber que grupos de pessoas aqui na Ilha estão se organizando para receber refugiados em suas casas. Por mais que este gesto seja uma gota no oceano do miserê humano que estamos presenciando, ele restaura um caquinho de fé na capacidade humana de se compadecer e de ser capaz de se colocar de fato no lugar do outro. Que os trilhos da Europa se abram para outros ‘Kindertransport’. 
 
 
 
*Valnei Nunes esteve num campo de refugiados sírios na fronteira com a Turquia e gentilmente cedeu algumas de suas fotos para este post. Para conhecer mais sobre seu trabalho: http://www.valneinunes.com/

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je Suis Charlie








Logo que vim para Inglaterra, passei alguns meses numa república. Lá morava um irlandês, que mal tive a chance de conhecer. Ele chegava tarde da noite, calibrado e tropeçando pela escada. As poucas vezes em que o vi no fim-de-semana, ele estava emburrado, de cara inchada e se queixando de dor por causa de uma gota. Morava lá também um moçambicano. Ricardo era filho de portugueses, que tiveram que imigrar para a África do Sul, para fugir da guerra civil em Moçambique. Ele era boa praça. No menor quarto de todos, mal cabia uma cama de solteiro, vivia Miss Khan. A única inglesa da casa. Ela também era filha de paquistaneses. É sobre ela que quero falar.

K., como ela gostava de ser chamada, era inteligente e, ao contrário do irlandês, muito bem-humorada. Trabalhava no setor de informática da agência de notícias Reuters. Os pais dela eram daqueles mulçumanos que fazem peregrinação a Meca todos os anos. Eu, como todo imigrante que conheço, sofro da Síndrome de Tarzan. Depois de um tempo morando fora e adquirindo novos valores, não pertencemos 100% nem à selva, nem à cidade. No meu caso, nunca vou ser inglesa, mas também não sou a mesma brasileira que deixou o Brasil há doze anos. É claro que esse mal acomete as pessoas em graus diferentes, mas cedo ou tarde ele aparece. No caso de K, que é inglesa por direito de nascimento, a síndrome de Tarzan era sua essência.


K. nasceu na Inglaterra e frequentava uma escola inglesa. As mulheres da família nunca saíam com a cabeça descoberta. Ela foi criada num mundo dividido, onde os valores sociais e religiosos da família eram muito diferentes do que ela vivia fora de casa. Aos treze anos, ela foi levada pela primeira vez ao Paquistão. Chegando lá, ela foi informada de que iria se casar. Antes das férias terminarem, ela estava casada com um estranho, quinze anos mais velho do que ela. Ela me contou essa história, que provavelmente já havia contado a outras tantas pessoas. Mesmo assim, pelo tom da voz, a expressão do rosto e as mãos tensas deu para perceber que foram dias de absoluto terror, que ainda a atormentavam. Ela me disse que nem sabia como se faz bebês. Apesar de apavorada, K. enrolou a família toda (palavra dela, não minha). Convenceu os pais e o marido que tinha que voltar e terminar os estudos. Chegando aqui, ela fugiu de casa e chegou a viver nas ruas. Quando a conheci, ela tinha vinte e poucos anos e mantinha um relacionamento civilizado com a família.


Miss Khan foi ao meu casamento no Brasil. Achou o Rio de Janeiro o lugar mais espetacular do planeta. Ficou encantada pelo Brasil. Mas apesar dos dias quentes, em momento algum usou manga curta ou exibiu as pernas. K queria muito encontrar um amor. Vivia frequentando os 'speed dating’. Speed dating é um negócio estranhíssimo. Funciona assim, um bar organiza o evento, homens e mulheres interessados em descolar um namoro comparecem. As mulheres ficam assentadas. Na frente delas uma cadeira. A cada quinze minutos um apito toca, troca-se o pretendente e eles conversam. Ao final da dança das cadeiras, homens e mulheres informam aos organizadores os nomes de quem causou boa impressão. Se o homem e a mulher estiverem mutualmente interessados, podem trocar números de telefone e quem sabe sai coelho deste mato. K era bonita, mas não tinha muita sorte nestes encontros. O problema estava estampado na cara: ela era paquistanesa, de pele escura, cabelos negros, olhos amendoados e rosto quadrado. Um tipo que não agradava aos frequentadores. Ela tampouco estava interessada nos rapazes paquistaneses, que a fariam usar um véu na cabeça e exigiriam submissão, o que ela dizia não gostar. Além do mais, esses rapazes não aprovariam o estilo de vida livre que ela levava. K. conciliava a selva e a cidade do jeito que conseguia. Não comia carne de porco, não porque a religião não permitia, mas porque decidiu ser vegetariana. Não usava as roupas tradicionais, que as outras mulheres de sua família usavam, mas também não deixava os braços de fora. Perdemos contato e nos vimos só uma vez, anos mais tarde. Ela tinha engordado uns vinte quilos, não era mais tão alegre e continuava procurando um companheiro.


Quando minha filha era pequena, frequentávamos um grupo de contação de histórias na biblioteca do bairro. Era como entrar numa reunião da ONU. Mulheres do mundo todo e seus bebês. A biblioteca era um lugar ótimo para as mães se socializarem. Foi lá que conheci uma das minhas melhores amigas. Havia algumas mulçumanas no grupo. Entretanto, elas só conversavam entre si, não se misturavam. Toda vez em que puxei assunto com uma delas, fui bem recebida, mas a conversa nunca avançava. Ficava pensando se elas eram mais reservadas porque é uma forma de defesa, uma vez que são vítimas de preconceito. Será que era uma questão de autoestima? Sentiam-se menos do que as outras? Poderia ser que elas não aprovassem as conversas e os modos ocidentais das outras mães. Não saberia responder a essas especulações.


No meu post de natal (http://mariaeduardajohnston.blogspot.co.uk/2014/12/sem-trincheiras.html) , contei as histórias das francesas racistas num trem, fazendo caretas para uma mulher mulçumana e de um taxista argelino e seu ódio pelos franceses. Um dia depois do ataque que matou doze pessoas em Paris, as fotos dos suspeitos, dois franceses de origem argelina, estão em todos os jornais. Existe um temor de que os eventos das últimas horas na França fortaleçam ainda mais a candidata Marine Le Pen, da Frente Nacional de extrema direita e que bote ainda mais lenha na fogueira das manifestações xenófobas, que se alastram pela Europa.


O problema do terrorismo é que, gostemos ou não, pelo menos a curto prazo ele funciona. As manifestações de resistência e solidariedade em várias cidades da Europa e principalmente em Paris são comoventes. As pessoas apontando canetas e cartazes de apoio à revista são de arrepiar, assim como as charges que se multiplicam na internet.



 Entretanto, o fato é que, exceto um jornal alemão do qual tive notícia*, quase nenhum jornal europeu está disposto a publicar as charges satíricas da Charlie Hebdo. Certamente nenhum nesta ilha. Ninguém quer cutucar os mulçumanos fundamentalistas, colocar a vida de cidadãos e nações em risco. Neste sentido, a chacina parece ter sido bem sucedida. Do mesmo modo, os jornalistas mortos no ataque de ontem foram muito corajosos. Sabiam dos riscos e não abaixaram a cabeça. Li argumentos que sugerem que eles de certa forma mereceram, porque foram semear vento e acabaram colhendo tempestade. Um absurdo tão grande quanto dizer que uma mulher mereceu ser estuprada porque usou saia curta.


Aprecie esta charge culturalmente, etnicamente, religiosamente e politicamente correta  com responsabilidade. Obrigado.
 
 
 

 O massacre de ontem foi como o epicentro de um terremoto que reverberou por toda Europa e sacudiu o chão também do lado de cá do Canal da Mancha. Trouxe memórias dos ataques em Londres em julho de 2005. Mais uma vez se diz que o que está em jogo é um estilo de vida e a liberdade de expressão. Hoje ouvi um político inglês dizer que temos que lutar por essa liberdade. O ‘x’ da questão é o quanto da nossa liberdade pessoal estamos dispostos a perder para garantir a liberdade? Leis antiterrorismo, mecanismos de controle e mais invasão na vida do cidadão para garantir a segurança. Será esse o preço?


Como em toda tragédia, os políticos vão tentar capitalizar da melhor maneira que conseguirem. Aqui, na França, no resto da Europa, nos Estados Unidos e em todos os países que de alguma forma se sentem ameaçados pelo terrorismo islâmico. Promover mais divisão, exclusão, forçar uma visão única de vida é a solução?  Ou só agrava ainda mais as síndromes do mundo?


 * Três dias após a publicação deste post, o jornal alemão foi atacado. http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2015/01/11/sede-de-jornal-alemao-com-conteudo-da-charlie-hebdo-e-atacado-na-alemanha.htm

sábado, 1 de novembro de 2014

Bode expiatório





A eleição tomou conta do noticiário no Reino Unido na semana passada. Não a brasileira, nem a boliviana, mas uma pequena votação no sudeste da Inglaterra, num lugar chamado Clacton, em Essex. Imagine que o mapa do Reino Unido se pareça com um coelho assentado visto de lado. Clacton fica do lado direito, logo abaixo do pompom que é o rabo do coelho. Clacton é uma cidade de praia, que foi popular nas décadas de 50 e 60, mas que hoje é decadente e pobre, com um grande número de aposentados e de pessoas desempregadas, que vivem de benefícios do governo.  A eleição nesta pequena localidade de menos de 55 mil habitantes sacudiu a política por aqui.


  O voto no Reino Unido é distrital. O país é dividido em 650 distritos eleitorais. O eleitor vota no parlamentar da sua região. Cada região tem apenas um representante no Parlamento. Fica mais fácil acompanhar o que o parlamentar anda fazendo. O eleitor não escolhe o Primeiro-ministro. Na prática o Primeiro-ministro é o líder do partido com maioria no parlamento. Como nas últimas eleições gerais nenhum partido obteve maioria absoluta, o líder do partido mais votado, Conservador, foi convidado a formar uma coligação.  Essa aliança formada em 2010 ainda repercute na política por aqui.


   Tradicionalmente, o Reino Unido tinha três partidos principais: os dois gigantes, Trabalhista e Conservador e o Liberal-Democrata, que corria por fora. Simplificando bastante a história; o Conservador, como o prórpio nome diz, é mais tradicionalista. Suas políticas sociais são mais conservadoras e as políticas econômicas tendem para o neoliberalismo, apontando para uma participação menor do Estado na economia, redução de impostos e gastos em programas sociais. O partido Trabalhista nasceu nos sindicatos, é mais liberal em questões sociais (aborto, casamento gay, etc). Na economia, defende a participação maior do Estado, investimento em políticas sociais e se o preço é o imposto, que assim seja. Os ‘ Lib-dems’ historicamente estavam mais próximos dos Trabalhistas do que dos Conservadores. Entretanto, desde as últimas eleições gerais, fazem parte da coalizão com os Conservadores. Só a título de comparação, mais ou menos como Marina Silva apoiando Aécio Neves.

  Uma coisa é ser oposição, outra coisa é ser governo. Uma das maiores bandeiras dos ‘Lib-Dems’ era de que os empréstimos aos estudantes universitários não sofreriam cortes (ponto de honra depois dos protestos estudantis, principalmente em Londres em 2010). Na queda de braço que é governar, o liberal Nick Clegg, que é o vice do Primeiro-ministro de David Cameron, saiu perdendo. Seus eleitores nunca perdoaram. Nas últimas eleiçõespara o parlamento europeu, os Lib-dems foram o partido que mais perdeu.

   Enquanto conservadores, trabalhistas e liberais democratas se estapeiam, outro partido se fortalece no Reino, comendo pelas beiradas. O UKIP (UK Independency Party), o partido da Independência, cresce e faz estragos na política interna. Seu líder é um sujeito chamado Nigel Farrage, que adora dar entrevistas em pubs, fazendo a linha popular e que parece uma caricatura saída de uma revista em quadrinhos. O estilo diferente e menos formal apela para as camadas mais conservadoras e xenófobas da sociedade britânica. Ele tem duas únicas ideias: o Reino Unido tem que sair da Comunidade Européia e tem que fechar suas portas para os imigrantes, que roubam os empregos locais e colocam o sistema de saúde sob pressão. Na última notícia que li sobre o Farrage, ele defendia que se negasse a naturalização aos imigrantes HIV positivo.

   O partido da Independência não é grande o suficiente para fazer um primeiro-ministro, mas pressiona os outros partidos, que anunciam políticas que visam restingir a entrada de estrangeiros no país. A temporada anual das convenções partidárias acaba de chegar ao fim. Em seus discursos, todos os líderes de partido, de uma maneira ou de outra, tiveram que dar uma resposta ao crescimento do UKIP.

    A mensagem do UKIP encontra ressonância no setor mais conservador do partido Conservador, que também não gosta da associação com a Comunidade Européia. Um parlamentar conservador chamado Douglas Carswell era um dos descontentes. Ele se desligou de seu partido. Aqui não funciona como no Brasil, onde os políticos mudam de partido quando bem entendem. Carswell foi eleito como representante do partido Conservador, seus eleitores votaram na política de um partido e não necessariamente no parlamentar. Como ele se bandeou para o lado dos Independentes, uma eleição regional foi convocada, para que os eleitores escolhessem seu representante.  Daí a eleição em Clacton.

   A cidade praiana acabou entrando para a história, porque foi lá que pela primeira vez os Independentes elegeram um membro do parlamento. Uma pesquisa publicada essa semana pelo jornal The Guardian aponta para a chance de o UKIP conseguir pelo menos mais cinco assentos na próxima eleição, provavelmente no ano que vem.  Não por acaso, o crescimento deste partido de extrema direita se dá num cenário de vacas magras. Também não é mera coincidência que o maior eleitorado do UKIP esteja entre aposentados e pessoas de baixa renda e baixa escolaridade. Eles acusam os conservadores de não serem conservadores o suficiente para barrarem o ‘perigo’ que vem de fora, tirar a paz e os empregos locais. Também não querem saber dos Trabalhistas. Paradoxalmente porque, via de regra, estão interessados no ganho imediato: preferem a redução de impostos aos benefícios sociais, embora não sobrevivam sem eles. O imigrante, como bode expiatório, cabe direitinho nesta equação. É dele a culpa por todos os problemas econômicos e sociais. 

(15/10/2014)