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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Mamãe, eu quero mamar


 
“ Meu filho já saiu da maternidade mamando na mamadeira. Acho mais justo. Assim, uma noite eu fico acordada e na outra é a vez do meu marido. Por que só eu tenho que perder o sono? Somos ambos os pais da criança: direitos e deveres iguais! ” Com poucas variações, já ouvi esta frase algumas vezes aqui na Ilha. A primeira vez foi uma ex-vizinha, que completava dizendo que por causa de sua decisão, ela nem teve que abrir mão do vinhozinho, que gosta de tomar para relaxar ao fim de um dia atribulado.
 



 

Kirstie Allsopp é uma figura carimbada na tevê britânica. Ela apresenta programas como o Location, location, location, atuando como uma espécie de corretora de imóveis, mostrando casas a compradores em potencial. No ano passado, ela acabou se envolvendo num bafafá, ao dizer que as mulheres (que quisessem ser mães) deviam ter filhos na casa dos vinte e não aos trinta e tantos anos e que, se o preço fosse esse, que adiassem suas carreiras. Para ela, as prioridades estão trocadas e tratamento de fertilidade não deveria ser planejamento familiar.

 

Feministas de norte a sul, leste e oeste subiram nas tamancas. Kirstie, que faz a linha sou franca, disse que a discussão não era política ou social e sim que não se pode mudar a natureza. Cada mulher é dona do próprio nariz, mas elas que não se enganem: depois dos trinta e cinco a fecundidade diminui, independentemente da mulher ser bem-sucedida profissionalmente ou não. A questão, sem dúvida, é complexa e tem muitas pontas. Mas não dá para negar que, apesar das descobertas científicas terem evoluído horrores nas últimas décadas, o tal do relógio biológico não para. Ainda temos deadline, um prazo de validade para nossa fertilidade. Esse prazo vale tanto para as mulheres nas tribos mais remotas do planeta, quanto para as presidentes de multinacionais.

 

Esta semana, Jess Philips, uma parlamentar do partido trabalhista, entrou com um requerimento, que ela mesma considera controvertido: quer que as mulheres tenham direito de amamentar seus bebês no plenário e nas reuniões do Parlamento Britânico. Em pelo menos uma coisa ela tinha razão: o assunto é polêmico.
 

A parlamentar Jess Philips

 

Um colega de Jess, o conservador John Burns, mordeu a isca e virou notícia. Ele disse que a amamentação no Parlamento só deveria ser liberada, quando as caixas de supermercado puderem trabalhar amamentando os bebês ao mesmo tempo. Para ele, existe hora e lugar para tudo, amamentar inclusive. Como sempre, fui ver o que os leitores estavam comentando. A maioria dizia que lugar de trabalho é para trabalhar e que um bebê iria incomodar. Outro, mais irônico, disse que era contra, porque se o bebê ficasse ouvindo desde cedo o que os políticos dizem, nunca saberia diferenciar o certo do errado.

 

Brincadeiras de lado, a parlamentar que propôs a mudança disse que o papel dos políticos é liderar pelo exemplo e que, se o povo pudesse ver seus representantes amamentando em público e conciliando a vida profissional com a maternidade, seria um exemplo e tanto.

 

A fotógrafa paulista Miriam Dias é totalmente a favor da amamentação em público. “Se a criança está com fome, por que não a alimentar", ela argumenta. Miriam vive na Inglaterra desde  2006 e participa de um grupo que promove “mamaços”. São mulheres que se conectam nas redes sociais. Quando se tem notícia de uma mãe que foi maltratada por alguém por amamentar em público, elas se organizam e vão unidas amamentar seus bebês no lugar onde aconteceu o mal-estar. Para Miriam, é importante conscientizar as mulheres sobre os benefícios do aleitamento materno. Ela acredita que muitas acabem trocando o peito pela mamadeira, porque não recebem o apoio que necessitam. Seja dos parceiros ou da sociedade.

 
Miriam amamentando a filha
 

Miriam não está sozinha. Várias campanhas, tanto do governo quanto da sociedade organizada, tentam incentivar o aleitamento materno. Essas iniciativas surtem algum resultado. Mais mulheres estão optando pela amamentação nesta parte do planeta (de 62% em 1990, para 81% em 2010), mas essa determinação toda não vai muito longe. Bico do peito rachado, dores, inflamações e o fato de que a mãe não pode sair sem o bebê acabam desestimulando muitas mulheres. O desafio é convencer as mães a persistirem, sem fingir que não existem problemas no caminho. É preciso uma discussão honesta sobre o tema e, como disse a Miriam, apoio.

 

Miriam conta que sua filha nasceu de cesariana e que no começo o aleitamento não foi fácil. Raquel perdeu muito peso nos primeiros dias, mais do que é considerado normal. Ela pediu ajuda às ‘health visitors’ (uma espécie de agente de saúde que visita em casa TODAS as mulheres que tiveram filho recentemente). No dia seguinte, recebeu a visita de uma consultora em aleitamento. Elas não se acertaram. Dois dias depois, veio outra, que a ajudou bastante. Raquel tem dois anos e onze meses e ainda mama no peito. Perguntei a Miriam quando ela vai parar e ela me respondeu: quando minha filha não quiser mais.

 

Se pelo menos mais mães fossem como Miriam, o NHS (o sistema de saúde pública) levantaria suas mãos para os céus. O Sistema de Saúde publicou os resultados de uma pesquisa da Universidade Brunel, financiada com recursos da UNICEF. O estudo sugere que apenas 7% das mulheres continuam amamentando depois do quarto mês. E vai além, se este número passasse para 45%, o sistema de saúde iria economizar 40 milhões de libras por ano.

 

Eles chegaram a essa cifra calculando o quanto gastam com o tratamento de gastroenterite, bronquite, otite (inflamação de ouvido) e uma doença muito mais grave que necrosa o intestino dos bebês. Estas doenças citadas acima são muito menos recorrentes em crianças que mamam no peito. Além do mais, o aleitamento reduz os riscos de câncer de mama, de ovário e diabetes. Em suma, segundo o estudo, amamentação não é apenas melhor para a mãe e o bebê, mas também para os cofres públicos.

 
Se amamentar meu bebê é desconfortável para você, me diga,
por que você não olha para o outro lado?
                                          

 

Mas o que fazer quando a mulher quer, mas não pode amamentar, porque tem que trabalhar? Aqui na Ilha a licença maternidade é de 26 semanas e pode em alguns casos ser estendida por mais 26 semanas. Seis meses de aleitamento está de bom tamanho, não? Há controvérsias. Existe o argumento de que, depois dos seis meses, os benefícios do aleitamento materno X mamadeira não são tão significativos.
 
A socióloga Cynthia Colen, da universidade de Ohio nos Estados Unidos, conduziu um estudo para investigar os benefícios do aleitamento longo (mais de seis meses). Ela partiu da premissa que crianças que recebem o aleitamento materno por um período mais longo apresentam ganhos não só em termos de saúde, mas também no desenvolvimento cognitivo.
 
 A Dra. Colen analisou informações colhidas num período de 25 anos, com mais de 8 mil crianças de 4 a 14 anos. Ela quase caiu para trás com os resultados que encontrou. A maioria dos estudos compara o aleitamento nas famílias de poder socioeconômico baixo com famílias que estão melhor de vida. Já se sabe que as mulheres com menos problemas financeiros e nível educacional mais alto são as que mais amamentam seus filhos, além de serem mais propensas a oferecer uma alimentação saudável e de entenderem melhor os benefícios da educação. Quando ela comparou grupos de crianças de famílias com o mesmo poder aquisitivo, ela concluiu que os benefícios do aleitamento longo simplesmente desapareceram. Ou seja, não apresentaram nenhum ganho significativo. No entanto, a pesquisadora diz que é inegável os benefícios do aleitamento, só que é preciso uma discussão mais balanceada sobre o assunto.
  

Talvez o equilíbrio aconteça quando o aleitamento materno deixar de ser motivo de guerra entre os sexos, disputas políticas ou batalhas de estatísticas. Quando mamar no peito for  simplesmente a expressão da natureza, sem complicações. Só a deliciosa intimidade entre mãe e filho.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Menor de idade e grávida




Minha filha tem duas amigas mais próximas na escola, ‘Daisy’ e ‘Elizabeth’. Resolvi mudar os nomes, por uma questão de privacidade. O pai de Daisy está desempregado. A mãe trabalha dois dias por semana numa loja. Eles dependem de uma ajuda do governo para fechar as contas no fim do mês e vivem num ‘council flat’, uma espécie de moradia social, subsidiada pela administração regional do bairro. A três quarteirões do prédio de Daisy, vive Elizabeth, numa casa avaliada em um milhão de libras (quatro milhões de reais). O bom é que ambas frequentam a mesma escola e são tratadas do mesmo jeito pelos professores e colegas.


 A avó de Daisy é um ano mais nova do que o pai de Elizabeth. Um fato que as meninas acham engraçadíssimo. Nem a avó de uma e nem o pai da outra são idosos, embora quando se tem dez anos, qualquer um com mais de trinta é velho.  As histórias dessas duas famílias são emblemáticas. Ilustram bem o que acontece por aqui e em muitos outros lugares. Nas regiões mais pobres, a gravidez na adolescência é maior do que em outras áreas, onde o número de casais que têm o primeiro filho perto dos quarenta anos é maior.


Desde que vim morar na Inglaterra, há mais de dez anos, escuto falar que a gravidez na adolescência é altíssima nesta ilha, porque as meninas ganham casa e são sustentadas pelo governo. Entretanto, uma notícia essa semana virou esse disco arranhado. Trouxe uma novidade: o número de jovens menores de dezoito anos, que engravidaram na Inglaterra e País de Gales, caiu pela metade nos últimos quinze anos. É o menor desde 1969, data do primeiro registro. As estatísticas, no entanto, revelam que a maior incidência de gravidez na adolescência ainda está concentrada nas áreas mais pobres do país.


A jornalista e comentarista Deborah Orr, do jornal ‘The Guardian’, que tem uma linha editorial mais de esquerda, credita a diminuição do número de adolescentes grávidas às mudanças na sociedade. Para ela, a versão de que as moças engravidavam de propósito, para serem sustentadas pelo Estado, é simplista e falha ao enxergar o contexto social. A jornalista argumenta que a discriminação que as mães solteiras sofriam caiu radicalmente depois da revolução sexual dos anos 70 e durante os anos 80. O que restou foi a ideia que estava na base do preconceito; a concepção de que o valor da mulher estava somente na maternidade e no lar. Principalmente para as moças pobres, com menos chances de conseguir um bom emprego, a maternidade era a única vida que elas vislumbravam. Então, por que adiar o inevitável?  Aos poucos, graças aos investimentos em educação, elas foram percebendo o ônus de uma gravidez precoce.


Educação é, de fato, uma palavra-chave. A queda do número de adolescentes grávidas coincide com um maior investimento nas meninas. Hoje em dia elas apresentam um desempenho escolar melhor do que os meninos em todas as áreas do conhecimento, incluindo as exatas. Existem várias teorias que tentam explicar este fenômeno. Uma delas é que a escola é um ambiente dominado pelas mulheres, a maior parte dos professores são mulheres. Os livros e o material didático favoreceriam as meninas. Outra tese é de que se criou a ideia de que os meninos não são tão bem sucedidos quanto as meninas, porque são agitados e não se concentram. Na opinião de um especialista em educação, esta ideia fatalista é determinante do fracasso escolar dos meninos, já que não se espera muito deles. Se o desempenho deles não é bom, é apenas mais uma profecia que se cumpre. Eles estão apenas seguindo um roteiro de expectativas.


Educação em geral parece ter tido um impacto positivo na redução de gravidez na adolescência, mas a educação sexual nas escolas merece um papel de destaque nesta história. O programa começa já com as crianças no jardim de infância. Tudo muito sutil, fala-se de amor e cuidados com o corpo. Faz parte do currículo e as crianças nem percebem. Nos três últimos anos da escola primária (crianças de 9,10 e 11 anos), as aulas se tornam mais óbvias. As crianças assistem a vídeos, apropriados para a idade delas. Um deles conta a história de um grupo de meninas e meninos que sai a procura do gato da família e acaba descobrindo que o gato era uma gata, que teve filhotinhos.  Depois eles visitam uma tia que está grávida. Aos poucos os vídeos introduzem questões como as mudanças corporais e preparam as crianças para a adolescência.


 Mas nem todos os pais estão de acordo com as aulas. Fui a uma reunião na escola, convocada para discutir o tema e mostrar um aperitivo dos vídeos. Quando o filme falou de masturbação feminina, sem mostrar nada explícito e sem dar nomes aos bois, uma das mães ficou irritada. Ela se mexia na cadeira, olhava para vizinha ao lado e balançava a cabeça como quem diz não. Assim que o professor perguntou se alguém tinha alguma pergunta, ela fez seu discurso. Disse que não autorizaria a presença da filha nas aulas e que isso não era assunto para escola.


Alguns anos atrás, o chefe-celebridade Jamie Oliver entrou numa campanha para melhorar a qualidade da merenda escolar. Ele estava preocupado com o que as crianças comiam na hora do almoço. Como não dá ponto sem nó, fez um documentário sobre o tema. As escolas, mostradas no programa, introduziram a merenda saudável e proibiram que as crianças levassem de casa alimentos açucarados e cheios de gordura saturada. Até hoje me lembro da cena de algumas mães jogando pacotes de batata frita e chocolates para os filhos por cima da cerca do pátio da escola. A mãe indignada da reunião de pais me fez pensar nas mulheres do documentário. Nos dois casos, elas fizeram o que achavam melhor para seus filhos. Se ao menos a ignorância protegesse nossas crianças...




Virtual Babies




Na escola secundária, a educação sexual é ainda mais presente. Muitas escolas introduzem o Bebê Virtual como parte do currículo.  São bonecas-robôs para que as meninas tenham a oportunidade de ‘praticar’ durante vinte e quatro horas. O bebê virtual chora pra burro, no meio da noite, no meio do dia, como um neném de verdade. A ‘mãe’ tem que trocar a fralda, acalmar o bebê, vesti-lo com a roupa apropriada para o clima e alimentá-lo. Ao contrário de um filho de verdade, o bebê virtual grava tudo. A adolescente e a escola recebem um relatório completo de como foram os cuidados. Além do bebê virtual, existe também um feto virtual, que simula a gravidez e outro bebê, que ao ser sacudido, mostra os danos provocados no cérebro. Tem também o bebê que já nasce viciado em drogas e álcool e sofre síndrome de abstinência e problemas neurológicos.




 
  







Não há como negar que os programas educativos tiveram um impacto na redução da gravidez na adolescência, mas a internet pode ter tido sua parcela de responsabilidade também. O doutor Philip Zimbardo é um dos psicólogos mais famosos do mundo. Na década de 70, conduziu um estudo sobre o comportamento de prisioneiros e carcereiros.  Com mais de 80 anos dirigiu seu olhar para a internet. Numa palestra do TED em 2011, ele avaliou o impacto da internet no comportamento dos adolescentes.



 





  A palestra é em inglês, mas a transcrição do texto em português está na http://www.ted.com/talks/zimchallenge?language=en 

  


Zimbardo parte da premissa de que os jovens passam tempo demais na internet. Estima-se que um típico rapaz de vinte um anos tenha passado dez mil horas de sua vida jogando videogame. E aí vai um dado ainda mais assustador: em média os adolescentes assistem a cinquenta vídeos pornográficos por semana. Ao contrário do vício das drogas, onde o viciado quer mais da mesma substância, o vício virtual cria um desejo constante por novidades. Aí é que mora o perigo. 


Vários estudos apontam para um novo fenômeno; o de rapazes que têm medo de intimidade, simplesmente porque, de tão acostumados com o mundo virtual, já não sabem como se comportar no mundo real. Não sabem a língua do cara a cara. Imagine juntar a falta de experiência com a expectativa criada pelos filmes pornôs numa cabeça cheia de hormônios pululantes. Com medo de falharem, esses adolescentes acabam adiando o início da vida sexual.

A pressão que a pornografia exerce sobre os adolescentes, de uma forma totalmente distorcida, acaba tendo um impacto na redução de gravidez na adolescência, porque as meninas estão namorando rapazes mais velhos, que são mais maduros quanto à contracepção e mais focados nos planos a longo prazo.


Com os rapazes da mesma idade fora do alcance, as moças passam muito tempo nas redes sociais. Vários tabus podem ter caído desde a revolução sexual, mas a menina namoradeira ainda hoje é taxada de galinha. No mundo virtual elas se vigiam o tempo todo e o caldeirão da fofoca borbulha como nunca. Elas têm que ser mais cuidadosas, porque o escândalo agora é mais público do que nunca e as consequências no grupo social são maiores.
  

Este papo todo de internet, mudanças na sociedade e educação é besteira, dizem os mais céticos. O que mudou realmente foi que o partido Conservador, no poder desde 2010, cortou a mamata das adolescentes. De fato, o partido Conservador tem cortado sistematicamente muitos benefícios sociais, como parte do plano para a retomada de crescimento da economia. Mas o interessante é que, mesmo durante o governo dos Trabalhistas, o número de gravidez na adolescência vinha caindo. Se esta tendência de queda se consolidar, quem sabe Daisy não vá repetir a história da mãe e da avó. Espero que sim. E tomara que o discurso de Patrícia Arquette, ao receber Oscar de melhor atriz coadjuvante, seja ouvido. Ela disse que está mais do que na hora das mulheres receberem os mesmos salários dos homens. Quem sabe assim, mais adolescentes adiem a maternidade, porque enxergam um futuro melhor.









quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Chame a Parteira




A mulher arrasta os pés pelo corredor longo de portas fechadas. A luz fria engana; é dia ou noite? O cheiro de desinfetante e drogas arranha o nariz. O som de gritos, choros e gemidos atravessa as portas e fura os ouvidos. O coração bate acelerado. Dois passos adiante, andando eficientemente, segue outra mulher, imune à luz, ao odor e ao barulho. Nestas horas a ironia é irresistível.‘Vocês dão beliscão nelas?’ Pergunta a mulher que se arrasta. A outra dá uma piscadela antes de abrir a porta de um quarto vazio. As duas entram. Pouco depois é a vez de a mulher gritar, gemer e chorar. Falam por aí que a dor do parto é uma das mais doídas.  







  

Não sei de você, mas sou daquelas que se emociona com cena de bebê nascendo em livros, filmes e novelas. Pode ser o filme mais podre, com os atores mais canastrões do planeta. Não importa. Fico comovida do mesmo jeito. Deve ter mais gente como eu. Digo isso porque desde janeiro de 2012 o ‘Call the Midwife’ (exibido no Brasil pelo canal BBC HD com o nome de Chame a Parteira) é um dos maiores sucessos da tevê britânica. No ano passado, alcançou uma audiência consolidada no Reino Unido de quase onze milhões de telespectadores, batendo o famoso Downton Abbey da concorrência. A série, já na quarta temporada, mostra o drama de parteiras no pós-guerra, num dos bairros mais pobres de Londres.

 
 
Call the Midwife
 
 



A palavra ‘midwife’ vem do inglês antigo, quando ‘mid’ era ‘com’. Então ‘midwife’ significa com a esposa, com a parturiente. Em português, parteira. A palavra parteira ainda me remete à ideia de uma mulher mais experiente, embora sem treinamento formal, numa comunidade rural e sem recursos, que ajuda outras mulheres a terem os filhos em casa. A parteira daqui é muito diferente dessa imagem romantizada.
 
 
As midwives atendem à maioria dos partos no Reino Unido. Elas são enfermeiras treinadas em obstetrícia. Mas não são enfermeiras, são midwives, que é outra especialidade. Para se chegar lá, é preciso fazer um curso universitário que varia de três a quatro anos de duração. Quem já tem diploma em enfermagem, pode fazer uma especialização. A profissão é tão valorizada na Inglaterra, que o governo paga as mensalidades da faculdade e oferece uma ajuda de custo às estudantes (a grande maioria mulheres, mas não exclusivamente). Universidade aqui é paga.

 

As midwives são responsáveis pelo pré-natal. Se a gravidez é normal, de baixo risco, a mulher não se consulta com o ginecologista, só a midwife. Ela também faz o parto, no hospital ou em casa e cuida do pós-natal, até 28 dias depois do nascimento. Algumas delas ainda trabalham em clínicas de planejamento familiar. Em dezembro do ano passado, o National Institute for Health and Care Excelence (Instituto de Excelência em Saúde e Cuidados, em tradução livre) publicou uma recomendação relativa aos partos. Em resumo, diz que os centros conduzidos por midwives são ainda mais seguros do que os hospitais, em se tratando de gravidez de baixo risco. Ressalta que o número de anestesias, cortes cirúrgicos no períneo e uso de instrumentos (fórceps) nos partos é significativamente menor. O número de partos que resultam em cesarianas é o mesmo dos hospitais.

 

É mais seguro mesmo? A verba alocada ao NHS, o serviço nacional de saúde do Reino Unido, não paga apenas o salário dos profissionais envolvidos, medicamentos, manutenção e equipamento. Boa parte do dinheiro acaba sendo gasta em compensações. O setor que recebe a maior fatia deste montante é o de ginecologia e obstetrícia. O NHS pagou mais de três bilhões de libras em indenizações por barbeiragens em partos entre os anos de 2000 e 2010. Isso soma doze bilhões de reais! Um número que cabe redondinho nas manchetes de jornais. Um escândalo da saúde pública. Mas com números, todo cuidado é pouco. Todo mundo sabe que, quando bem torturados, os números contam qualquer história. Então é melhor olhar essa história com calma.  



As compensações relativas aos partos são maiores porque as vítimas que, por exemplo, sofreram falta de oxigenação cerebral durante o nascimento, vão precisar de cuidados pela vida toda. Em muitos casos nunca vão conseguir trabalhar e serão dependentes.  O que quer dizer que o valor pago a cada um dos processos é maior do que em outras áreas. Além disso, o número de ações cresceu, porque aumentou o número de partos. Mas não foi somente o número de nascimentos que subiu, aumentaram também os escritórios de advocacia que trabalham na base do ‘no win, no fee’, se não ganhar a causa, não paga nada. O que estimula mais pessoas a entrarem com processos judiciais e cria uma cultura mais litigiosa. O fato é que menos de um em cada mil nascimentos resulta em um destes processos. É claro que para as famílias afetadas, esses números não significam absolutamente nada. Entretanto, o NHS garante que o Reino Unido é um dos lugares mais seguros do mundo para se dar à luz, embora reconheça que por vezes a falta de parteiras e profissionais experientes pode gerar complicações e até mortes.
 
 

A brasileira Tatiane Del Campo é fã de carteirinha das midwives e do modelo inglês. Ela teve os dois filhos aqui. Disse que a informação que recebeu durante a gravidez foi fundamental. Sabia o que esperar. Perto do dia esperado para o nascimento de seu segundo filho, a mãe dela veio ajudar. A bolsa rompeu e a dona Paula começou a insistir para que a filha fosse para o hospital. Tatiane disse para a mãe relaxar. Em Roma, faça como os romanos. Explicou que, só quando as contrações são intensas, a mulher fica na maternidade. Se chegar lá antes da hora, a gestante é mandada de volta para casa. Tatiane levou o conselho ao pé da letra, controlou a frequência das contrações e até saiu para dar uma volta no quarteirão, para o horror da avó da criança. Voltou para casa e tomou um loooongo banho de chuveiro (falta d’água não era problema). Sentiu uma contração mais forte. Estava na hora. Ligou para o hospital e foi aconselhada a esperar por uma ambulância. Ela não queria ter filho em casa. Correu com o marido para o hospital. Dois minutos depois de dar entrada, nasceu o Gabriel. Tatiane virou lenda na maternidade, a parturiente mais rápida deste lado da ilha. Um recorde aplaudido com bom humor pelas midwives de plantão e que ela conta com um sorriso orgulhoso. 




Os recordistas Tatiane e Gabriel
 


 

Ao contrário de Tatiane, Siobhan Mc Brien não quis ter o terceiro filho no hospital. Os dois primeiros haviam nascido de parto normal, sem anestesia numa maternidade. Quando ficou grávida do terceiro, um surto de infecção hospitalar ocupava as manchetes dos jornais. Siobhan, que já não gostava de hospital, procurou sua médica generalista. Ela incentivou o parto em casa e indicou uma midwife, que fez todo o acompanhamento do pré-natal. Quando entrou em trabalho de parto, a midwife foi até a casa dela com uma estudante, que nunca tinha ajudado num parto. Siobhan conta que foi uma experiência única e inesquecível. Teve a filha em seu quarto, acompanhada do marido e das parteiras. Assim que Beth nasceu, a estudante chorou de emoção.

 

 

 

 
Beth nasceu em casa

 

 
Antes do nascimento de Beth, Siobhan pensou em ter a segunda filha em casa, mas morava em outro bairro e o médico local não gostava da ideia. Para ela, ainda existe muita resistência quanto ao parto em casa. Ela disse que não teve medo e que, se houvesse alguma complicação, o hospital era perto de casa. Um estudo conduzido na Holanda e publicado em 2013, revela que o número de complicações sérias em partos feitos em casa é menor do que nos realizados em maternidades. Um em cada mil em casa. Dois ponto três em cada mil nascimentos em hospitais. 


 

Óbvio  que nem todos os partos são naturais. Um em cada quatro nascimentos no Reino Unido acontece por cesariana, que é classificada como uma cirurgia de grande porte. Um aumento de 25% desde a década de 70. O governo considera um número alto. Quer reduzi-lo. Tanto que uma das recomendações publicadas no site do NHS é que, se a mulher insistir em ter uma cesariana porque está ansiosa com a perspectiva de um parto normal, então ela deve ser encaminhada a um profissional da área de saúde mental.   




As cesarianas podem ser planejadas ou de emergência, dependendo de cada caso. Se correr tudo bem, a mãe e o bebê passam duas noites no hospital. Tatiane e Gabriel voltaram para casa duas horas após o parto. Nos partos normais, se não houver nenhuma complicação, mãe e bebê vão para casa no mesmo dia. Depois disso,  são acompanhadas em casa por parteiras e ‘health visitors’, agentes de saúde. Elas dão aconselhamento sobre como cuidar do bebê, amamentação e checam se a mãe corre risco de depressão pós-parto.
 
 

Quando a grávida vai para o primeiro exame de pré-natal na Inglaterra, ela sai carregada de folhetos informativos, um livreto sobre gravidez e parto e cupons.  Um dos cupons é para receber uma caixa cheia de fraldas, amostras grátis e outros brindes. É uma delícia o dia em que a caixa chega em casa. Parece que a gravidez fica ainda mais real. A futura mãe é aconselhada a tomar parte em cursos de pré-natal, no hospital ou os promovidos pelo NCT (National Childbirth Trust) , que é a maior organização de caridade direcionada aos pais. Nestes cursos, a gestante aprende sobre a gravidez e o parto, além de cuidados com o recém-nascido. Fiz o do NCT, que quando nada é uma oportunidade de se conhecer outras pessoas que estão no mesmo barco. Durante o curso, eles batem muito na tecla do parto natural. Falam de como os anestésicos podem ser prejudiciais para o bebê. Também recomendam fazer um plano de nascimento e entregá-lo à midwife na hora do parto. Marinheira de primeira viagem e caxias, fiz tudo isso. No plano, meu marido dizia que gostaria de cortar o cordão umbilical. Na hora H, o plano foi ‘pras cucuias’, ninguém se lembrou dele. Lição um de maternidade: esqueça os planos.  



Esta foi uma lição que a brasileira Luciana Auler aprendeu a duras penas. Entrou na maternidade com muitas expectativas e seu plano bonitinho debaixo do braço. Estava determinada a ter o parto na piscina e sem anestesia. A história é longa, ela foi para a maternidade às 7:30 da manhã. Lucas nasceu às 9:30 da noite, de cesariana. Luciana é muito grata aos cuidados que recebeu, mas se sentiu como se tivesse falhado. Todos eram muito gentis com ela, mas ela se sentia julgada. O segundo filho ela foi ter no Brasil.



 
Luciana, que tinha tudo planejado e Lucas





Como Luciana, conheço Tracey e Katie, que queriam muito um parto normal. Tracey passou quarenta! horas em trabalho de parto, Katie trinta e oito . As duas tiveram filhos por cesariana. 
 

Foi um alívio quando saiu o anúncio de que o parto de Kate Middleton , mãe do mais novo herdeiro real, tinha sido normal. Como se sabe, o bom exemplo deve vir de cima. Se ela tivesse passado por uma cesariana, não teria caído bem. Por aqui as revistas  femininas (e nada feministas) castigam as celebridades que têm filhos de cesariana. Essas mulheres são taxadas de ‘too posh to push’ - chiques, importantes demais para fazer força (na hora do parto).

 



Call the Midwife

 

 

Informação honesta, profissionais bem treinados e planejamento são fundamentais. É inegável. Como disse a Tatiane, existe aqui uma cultura que não só favorece como estimula o parto natural. O importante é que a mulher, esteja em que país estiver, não se sinta coagida, fracassada, pressionada e muito menos julgada pela forma como trouxe uma nova vida a este mundo.